Do you want to? E agüentar, você agüenta?

Publicado: 18/09/2006 em Uncategorized


Acredito que essa pulseirinha seja a única forma possível de definir o público da primeira noite do Motomix Art Music 2006, sábado, no Espaço das Américas. No misto de festa eletrônica e show de rock (que quase não rolou por complicações legais de última hora), esse apetrecho foi inútil, pois dava pra contar nos dedos quem estava ali e tinha nascido depois de 1987. Nada de espinha na cara ou camiseta do Linkin Park. Só quem sobreviveu aos anos 80 aceitou conferir essa miscelânea sonora.

A divisão das noites prejudicou a ala eletrônica, que acabou deixada para o domingo à tarde, mas resguardou o desejo da maioria, interessada mesmo no show do Franz Ferdinand. Só que, até lá, seria preciso enfrentar uma pequena maratona rave-punk. E era possível ver os tipos “pub londrino” chacolhando o esqueleto nos beats da loiríssima Annie, enquanto patricinhas tentavam usar o celular no meio do show do Art Brut.

A norueguesa Annie, a primeira atração internacional da noite, chegou atacando de sussurros e gritinhos fincados no batidão. Com uma pequena banda de dinâmica decente, começou morna e manteve energia crescente até o final do show. Uma parcela da platéia parecia um tanto deslocada, mas o resto caiu na gandaia eletrônica sem dó.

A “banda de abertura oficial” do Franz, no entanto, já havia sido eleita pela imprensa brasileira, e foi só o Art Brut começar “Formed a band” que o efeito pipoca se multiplicou. Fiquei na dúvida se todo mundo ali era mesmo fã de carteirinha dos ingleses ou se decorou as músicas baixadas um mês antes do show só pra parecer mais hype naquele espaço tão descolado.

Sepultura e terapia amorosa
A bem-humorada Art Brut nem precisava ter iniciado seu show com os riffs de “Back in Black”, do ACDC, porque a platéia se mostrou bem familiarizada com os grandes hits do grupo, como “Emily Kane” e “My little brother”. Mas a brincadeira parecia dizer que ali começava a porção rock da noite. Alguém enfim acendeu um baseado e era possível ver cabeças chacolhando.

O vocalista Eddie Argos fez questão de tentar cativar a platéia até o último minuto, com direito a seção da tradicional terapia amorosa antes de “Emily Kane”. “Se você está pensando em um ex-namorado ou ex-namorada agora, desencane, é muito melhor!”, bradava Argos. Com a camisa mal abotoada, apresentou a banda a cada canção e, além de arriscar o “obrigato”, citou Sepultura e CSS. Muito simpático da sua parte.

Out of control
Quem perdeu o show do FF pode esperar por algum especial da MTV pois, de acordo com o telão, a platéia cedeu sua imagem para a emissora ganhar dinheiro de alguma forma. O pagamento de quem estava ali veio mesmo em forma de redenção dos escoceses, com direito a destruição dos instrumentos ao final do show (o teclado foi chutado e jogado para a platéia). Mas ninguém esperava por bis mesmo, afinal eles atiraram hits sem dó nem piedade – “Do you want to?” veio na segunda música.

O show de São Paulo fechou um ciclo de excursões de três anos, por isso eles se sentiram no direito de tocar “Take me out” pela última vez, como disse Kapranos. Em compensação, deixaram um gostinho de quero mais mostrando “L Wells”, a nova música com calibre de hit.

O vocalista, com toda a sensualidade que um escocês magrelo e branco pode ter, tentava levar a banda, que teve momentos bem desencontrados (nada que o público ensandecido percebesse) e outros de pura faísca. Teve a clássica batucada em “Outsiders” e logo depois o fogo tornou-se tão descontrolado que eles dominaram a cidade e perderam o juízo. Se eu não tivesse visto um vídeo com os integrantes do Franz atirando machados em um alvo de madeira, não acreditaria no que fizeram com seus instrumentos. Foi algo como picotar o cartão de ponto em mil pedacinhos. E sair do palco com sensação de dever cumprido.

Deu dó da ótima Radio 4, que ficou por (pen)último. Entre Annie e Art Brut, talvez a banda se transformasse em um certo elo transevolutivo. Mas, depois do Franz furacão escocês Ferdinand, muita gente preferiu enfrentar a chuva lá fora do que dar uma chance ao novo Gang of Four. Afinal, como eu ouvi na porta do banheiro: “não tenho mais idade pra agüentar isso tudo”.

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comentários
  1. Ennio disse:

    Aninha!Curti muito a idéia do blog! E adorei: “Foi algo como picotar o cartão de ponto em mil pedacinhos. E sair do palco com sensação de dever cumprido.”Quem sabe algum dia…Beijão!

  2. renata disse:

    Mais simpático ainda de Eddie Argos foi encontrá-lo, todo altinho, do lado esquerdo do palco, a conversar com os (recém-adquiridos?) fãs, arriscar o português e tirar fotos pra la e pra cá.

  3. Karina Bueno disse:

    Ana,Juro que pensei em ir no festival e… ‘será que não estou muito velha pra essas coisas?’Juro que isso passou pela minha cabeça. Legal ter lido seu texto.Continua aí que a gente vai lendo.Bjo

  4. Nádia Pontes disse:

    Anithias;eu queria ter visto o Franz. não deu…é aí amiga, vamos botar a boca no trombone!!!!parabéns. virei fã da credencial tosca, e agradeço a força que vc dá ao vacagordaoumaujornalista.beijos!!!

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