Criadores, criaturas e tubos de ensaio

Publicado: 01/11/2006 em Uncategorized

Seria quase impossível passar ilesa à 30ª Mostra Internacional de Cinema. Fui agarrada pela reexibição do documentário “O Lixo e a Fúria”, trazido na leva grátis locada no vão livre do Masp. Com menos sucesso que nosso azarão ao Oscar “Cinemas, Aspirinas e Urubus”, também projetado ali na semana passada, mas com uma igualmente anárquica platéia que passava pela Paulista e decidiu ficar por ali, o vídeo me segurou na cadeira por 108 minutos pra contar a história dos Sex Pistols – pela visão dos próprios.

“The Filth and the Fury” foi produzido em 2000 com direção de Julien Temple e faz uma colagem de tudo o que a Inglaterra produziu, como culturas em laboratório, até chegar ao tubo de ensaio que resultou nos Pistols: a porca comédia britânica, o desemprego, a ode a um sistema prosaico que sufocava seus súditos e boas pitadas de loucura. Trechos de uma versão de Ricardo III perpassam as narrativas, especialmente as de Johnny Rotten, que compara o som que fazia a uma pintura.

O vídeo tem ótimas passagens, como os roubos protagonizados por Steve com freqüência aos instrumentos da equipe de David Bowie – e a constatação de que eles não sabiam tocar os instrumentos que roubaram; as impagáveis demissões dos caras das mais diversas gravadoras; a diversão que eles encontravam em esmurrar as caras um dos outros; Siouxsie bancando a supergroupie e a tristeza de Rotten quando chegaram os punks com seus moicanos e uniformizaram uma revolução que partia do “faça você mesmo, seja você mesmo”. Mas o documentário se esquiva das partes mais polêmicas, como a teoria de que eles não teriam gravado os próprios álbuns (como eles mesmo disseram, não sabiam tocar nada) e não dá voz ao empresário Malcom, acusado diversas vezes no vídeo de manipular os moleques como fantoches beberrões.

Além disso, fica difícil acreditar quando Rotten diz que eles não tinham noção de que estavam ultrajando tão veementemente o Reino Unido ao cantar “God Save the Queen” no jubileu da Rainha. Mas como o próprio também disse, quem escreve uma música dessas o faz não porque odeia os ingleses, mas sim porque os ama a ponto de não suportar vê-los na situação em que se encontravam.

“O Lixo” traz trechos de uma das últimas entrevistas de Sid Vicious antes do cara matar(?) a Nancy (que poderia ser avó de Courtney Love) e se entupir de heroína de vez. Conforme a nuvem negra vai se formando na voz de Sid, as colagens engraçadinhas vão se tornando escassas, os Pistols acabam e só fica aquela sensação tragicômica de vida real. Na voz dos moleques que revolucionaram a contracultura dos anos 70, os Sex Pistols foram uma piada suja, porém inteligente, com a poesia de um palavrão libertador.

Hot, hot, hot

Mais um quente de novembro, dica do jornalista blogueiro-rockeiro Giul Martins (discoteclando.blogspot.com): vem aí o quarto livro daquela coleção Iê-iê-iê, lembra? “Beijar o Céu”, com textos do crítico inglês Simon Reynolds, traz o rock até os anos 90 – começa no Morrissey, passa pelo grunge e termina no hip hop. Como bem disse Giul, mais um pra série, menos muitos para o nosso bolso…

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comentários
  1. Giul Martins disse:

    Se a confluência de datas fosse possível, Nelson Rodrigues contaria a vida como ela é a partir de uma tal banda chamada Sex Pistols…Hot, Hot, HotAgradecendo a menção honrosa da amiga jornalísta-bruxa-roqueira-batera-blogueira já adianto que o bolso, ou o pgm de download dos computadores roqueiros irão se encher ou esvaziar (não nessa mesma ordem…rs) pois o mestre Clapton volta mais uma vez as boas lançando um disco ao lado do já antigo ídolo J.J. Cale… é só esperar ou pra comprar ou pra baixar…rs.

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