Sobre homens e suas paixões

Publicado: 24/11/2006 em Uncategorized


Costumo brincar que, como baterista, sou ótima jornalista. Mas ontem eu descobri o contrário: bateristas podem, sim, ser ótimos jornalistas. E, a julgar pelo naipe de quem tentou essa proeza, o resultado não poderia ser realmente diferente.

João Barone ganhou respeito do público comandando as baquetas do Paralamas do Sucesso. Não só por fazer o povo dançar mas também pelo uso da sua técnica, arrancando admiração até mesmo de Iggor Cavalera, que cedeu seu ex-trono no Sepultura para o cara em uma faixa do álbum “Roorback”. Mas Barone tem uma outra paixão tão grande e destrambelhada quanto a bateria: carros militares antigos. E só mesmo a grana de uma longa carreira razoavelmente bem administrada poderia lhe dar o capricho de adquirir um, da Segunda Guerra.

Levado pela paixão amante, o baterista decidiu participar das comemorações dos 60 anos do Dia D, em 2004, na Normandia. De cara, já havia decidido levar sua câmera e algumas idéias para um vídeo. A coisa toda, no entanto, foi além, e resultou no DVD “Um Brasileiro no Dia D”, documentário que reconstrói para o telespectador atual os cenários e as histórias daquela que deveria ter sido nossa última guerra.
Barone co-dirige o vídeo e é responsável pelo roteiro, além de pilotar o jipe – sim, o seu, levado para a Europa numa proeza que precisou de patrocínio – e se encarregar da parte emocional da motivação de toda a equipe. Para enriquecer o documentário, resgatou personagens espalhados pela Europa.

Duas coisas me surpreenderam logo de cara, na sessão de autógrafos do lançamento do DVD ontem, na Fnac: a primeira foi a capacidade do rapaz de transformar uma paixão, pode-se dizer até mesmo um capricho, em informação útil para uma considerável parcela da população brasileira. A segunda e não menos importante foi a preocupação com essa informação. E isso, meu amigo, desculpa aí, mas é coisa de jornalista. É claro que ele não fez tudo sozinho – o DVD sai nas bancas pela revista Grandes Guerras. Mas deixou fazer, e isso é igualmente fundamental.

O baterista apressa-se em contextualizar todo esse movimento de homenagem a caças, paraquedistas e sobreviventes do genocídio mundial. Ex-combatentes americanos dão seus depoimentos e alertas para a juventude de hoje, que precisa barrar o avanço das guerras. Veteranos alemães explicam de uma maneira humilde e até culposa a sua posição – não eram só os brasileiros que eram forçados a lutar na guerra pelo seu governo. Em suas primeiras declarações ontem, Barone fez questão de ressaltar essa parte de todo o contexto do documentário. Por mais que se insistisse em perguntas logísticas (poxa, como foi levar um jipe do Rio de Janeiro para a Normandia?), Barone apegava-se a todo o aspecto humano que estava por trás dos carros militares que ama desde a infância.

“Paixão é paixão, né, gente, não se explica”, disse o baterista. A gente concorda. Mas o que se faz com essa paixão é que difere um homem do outro.

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comentários
  1. Tat disse:

    só um p.s: o Cavaleira é um péssimo batera, tecnicamente. Me desculpem os leigos que teimam em achar o contrário.Agora, o Barone além de um dos mais técnicos e perfeitos do Brasil realmente me surpreendeu depois dessa!

  2. Giul Martins disse:

    já que ele gasta talento de suas baquetas a serviço dos paralamas, nada mal aprontar essa armada surpresa

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