Senta que lá vem História

Publicado: 04/12/2006 em Uncategorized

Momento intimista do show de “B”

O fim dos tempos está próximo, caro leitor. São Paulo presenciou nesse fim de semana dois sinais bem claros disso: Los Hermanos tocando “Anna Julia” ao vivo e B.B. King em processo de aposentadoria. Mas vamos começar pelo começo – ou melhor, pelo fim.

A fantástica banda entra, entrosada pela experiência de shows em mais de noventa países. Não bastassem músicos talentosos e em completa harmonia, o show tem um quê de Cabaré, de “ladies and gentleman” que transporta os brasileiros arrumadinhos daquela noite para qualquer inferninho ao pé do Mississipi. O showman anuncia, em Chicaguês (um inglês ininteligível, esteja você sóbrio ou não), Vossa Majestade, recebida com aplausos, de pé, pelos súditos do castelo de Via Funchal. Em seu paletó brilhante, com um sorriso irresistível, Mr. King chega ao palco com uma hora pontual de atraso para tirar uma bela casquinha do seu próprio sucesso.

Quem conduz a festa são os oito músicos que o acompanham, incensados constantemente pelo rei, que pede ovações para todos a cada canção. E, apesar de encontrar-se em nítido processo de passar a bola para a próxima geração, “B” dá um show de jovialidade, swing e, é claro, fecha os olhos aí, netinho, que o vovô vai soltar a voz (e que voz!) e fazer sua amada Lucille chorar mais uma vez.

Dançando sentado, King interage absolutamente o tempo todo com seus súditos, esquecendo-se muitas vezes de levar a música até o fim para desfrutar um pouco mais de um papinho ao pé do ouvido da platéia. Ensina os rapazes a tratarem bem suas ladies, xaveca a mulherada brasileira e deixa conselhos de avô a respeito de uma vida que, a julgar pela placidez, lucidez e alegria do bom velhinho, foi desfrutada como se fosse um príncipe (depois de muito ralar pelo merecido reconhecimento). Quando voltava ao amigo blues, recebia a boa hospitalidade brasileira com acompanhamento sincopado de palmas e, em contrapartida, devolvia pílulas sábias de gogó e guitarra de quem foi um dos papais do rock and roll.

Acho desnecessário falar de alguns momentos–auge aqui, como “Ain’t That Just Like a Woman” ou “The Thrill is Gone”. O auge foi eterno: o lamentar de sua guitarra, sua voz rasgada destilando bons clássicos ou os simpáticos conselhos que B.B.King fez questão de deixar. Tecnicamente, o rei não tem mais forças para conduz o show. Mas sua majestade já foi provada – e é comprovada cada vez que ele solta a voz, o coração ou qualquer nota de sua Lucille. Resta-nos a reverência, as palmas e a lembrança de shows como esse, que as próximas gerações vão nos cobrar com toda a razão. Afinal, he’s a bluesman, but a good man – understand.

PS – Ao contrário do que pode parecer no meu último texto, o show dos Mutantes deverá ser gratuito. O que está à venda é o CD e o DVD, com o set list postado…
PS2 – Anna Julia? Los Hermanos? Quem sou eu? Onde estou? Pra onde vou? Amanhã…

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comentários
  1. bruno disse:

    Aninha, seu texto está simplesmente SENSACIONAL! Revivi cada emoção do show em cada linha dele. Parabéns!! E um beijão!

  2. Giul Martins disse:

    AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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