Será sempre um espinho?

Publicado: 05/12/2006 em Uncategorized


Existe algo de espantoso em um show do Los Hermanos que só quem viveu sabe. Você se sente em uma espécie de missa em que os devotos, compenetradíssimos, bradam cada palavra do mestre. Mal dá pra ouvir a voz do Camelo do meio da multidão e, a cada frase triste da canção, a platéia se exalta mais ainda. Ao mesmo tempo, o lugar não demora a transformar-se em um Carnaval com confetes, serpentinas e pierrots apaixonados. Portanto, nem é preciso beber muito para entrar em uma espécie de transe coletivo que pode carregá-lo a um lugar interessante (ou não).

E foi com essa impressão de outras experiências que cheguei ao City Jam Music Festival na sexta-feira, festival da revista Jungle Drums, que comemora quatro anos e inaugura um portal cultural (www.jungledrums.org). A revista é bilíngüe e promove um intercâmbio bacana entre o Brasil e o Reino Unido, com um time de jornalistas de primeira, incluindo muitos repórteres brazucas que vão tentar a vida lá fora. E, pra celebrar tudo isso, desde o início de novembro rolaram vários eventos em Sampa, Londres e Nova York. Na terra da garoa, a festa foi comandada sexta pelo Hurtmold, nossos amigos Los e o Clube do Balanço.

A bagunça rolou na Academia Brasileira de Circo, um lugar bem bacana para as bandas e o público em questão. Quem chegou antes ou depois do show dos Los Hermanos pode ter ficado com a impressão de que o lugar estava vazio. A fantástica Hurtmold aqueceu o povo, ainda meio espalhado pelo imenso picadeiro. O Clube do Balanço, que ficou com a tarefa de fechar a noite, teve de se contentar com os heróis da resistência que sobraram após a apresentação dos pierrots-messias. Mas quem participou do Carnaval sabe que o circo – desculpem o trocadilho – pegou fogo.

Entre brados, danças e cantorias Los Hermaníacas, a banda carioca fez um show vibrante (o som ajudou muito) e teve a incrível capacidade de se reinventar no fim de sua turnê- sem música nova nem socos na cara. O Los Hermanos paralisou as quatro mil pessoas presentes na Academia Brasileira de Circo quando, ao voltar para o Bis, jogou os primeiros acordes de “Anna Julia”, a música proibida.

Não foram muitos segundos até a platéia ferver novamente e dançar e cantar ao som da tal canção. Alguns rostos pareciam contrariados, mas a maioria já tinha caído em transe coletivo e realmente não pareceu se importar com o fato de que a música não tem nada a ver com o restante do repertório da banda – e que esse equívoco, além de levar os caras para o sucesso, também arrebanhou um bocado de fãs equivocados no começo da carreira (o que a levou a ser extinta dos set lists). Mas, enfim, talvez já tenham sido todos convertidos mesmo.

E, entre os devotos de São Los Hermanos, fiquei eu, de boca aberta, achando genial aqueles acordes bobinhos ecoando entre os rostos sisudos e tristes escondidos nos óculos de aros grossos que, até cinco minutos antes, bradavam a miséria doída de notas-de-samba-de-acorde-aranha que compõem o repertório do grupo.Eu já achava a banda muito da legal, apesar do show atual nem ser tanto assim. Mas, depois dessa apresentação, posso dizer que, pela reinvenção da própria cara que eles fizeram no palco, aguardo ansiosamente o novo álbum dos meninos – que deve começar a ser trabalhado justo agora, que a turnê do “4” acabou.

comentários
  1. thiago roque disse:

    vida longa aos quatros barbudos que trouxeram contemporaneidade (e um pouco de nostalgia carnavalesca) ao pop rock brazuca.

  2. Giul Martins disse:

    Serve o mesmo ah! do BBKing… mas não com o mesmo sentido!!! (apesar do texto estar ótimo).

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