Arquivo de janeiro, 2007

Dois textos em um

Publicado: 31/01/2007 em Uncategorized

Ficou com preguiça de ler os dois textos do show dos Mutantes? eu e a Bizz facilitamos a sua vida:
http://bizz.abril.com.br/voceescreve/facavocemesmo_209139.shtml

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Corinne Bailey Rae (a moça que canta “Put Your Records On”, cançãozinha gostosa da novela das 8) ainda não bateu os Beatles (e e é incrível como essa comparação continua sendo um bom parâmetro para novos artistas), mas ganhou a vice-liderança na história da Capitol Records na lista de artista estreante do Reino Unido a chegar aos primeiros lugares de vendas no país ao lado, os EUA.Seu álbum de estréia só perde para “Meet the Beatles” em saltos ornamentais nos rankings. O CD pulou da posição 32 para a 2 depois que a moça apreceu na Oprah.

Duas conclusões: a primeira, jabá realmente funciona. Apesar da voz de Corinne, pra mim, ter uma textura tão interessante como a de Macy Gray, a bela só ganhou din-din depois do plim-plim. A segunda: os Beatles são foda mesmo. Como é que um álbum de 1964 continua sendo recorde em rankings desse tipo?

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Uma campanha: Fãs inveterados de Black Crowes (um deles, nosso camarada Giul Martins, do Discoteclando) estão pressionando virtualmente a empresa de entretenimento CIE com um abaixo assinado para que eles tragam a banda para o Brasil. Quer participar? Chega lá: www.petitiononline.com/bcbrasil/petition.html

Um lamento: Essa é da série dor-de-cotovelo.Se você mora nos Estados Unidos, ainda pode tirar uma lasquinha do reality show da Rolling Stone que vai dar credenciais e uma vida de sexo, drogas e rock para alguns sortudos. A promoção é a seguinte: até sexta, você escreve como seria o festival dos seus sonhos (bandas, localização, etc, etc) e, se o seu projeto for escolhido, você (porque eu, não) ganha um laptop e três meses de canja na RS. Suspiro.


Seria difícil destacar pedaços de um show psicodelicamente homogêneo como o dos irmãos Dias. Acompanhados de uma trupe competentíssima, os bruxos produziram um caldo sonoro encorpado que, mesmo ensaiado, dava margem a belíssimos arranjos e todo o experimentalismo que, nos anos 70, só era possível nos álbuns. Particularmente, gostei bastante de “Ave Gengis Khan”, “El Justiciero”,“Desculpe Baby”, “A Hora a vez do Cabelo Crescer” e“Bat Macumba”.

O Elogio à Loucura, entoado duas vezes, não entra nem na lista, tal momento excepcional daquele frenesi coletivo típico de aglomerações como essa (e eu embarquei com a massa na maior). Mas que era bonito ver 50 mil pessoas assumindo que são loucas e felizes (será que o são mesmo, me pergunto), ah isso era.

Mas loucura mesmo foi o que se seguiu ao show. Colados a grades de ferro, os mais diversos fãs se espremiam na tentativa de chegar mais próximo dos ídolos que se encontravam a alguns metros, em um camarim improvisado. Um cabeludo absolutamente chapado perdia mais tempo xavecando as meninas que estavam por lá e tropeçando pelos cantos do que realmente tentando ir a algum lugar. Um homem segurava uma cópia do vinil de “Mutantes e Seus Cometas no País dos Baurets” e implorava pra que o segurança levasse para ser autografado. Um dos atendentes do Pronto-Socorro do evento o ajudava, já que ele tinha até passado malzão de tanta emoção.

Como várias pessoas apitavam sobre quem passava daquele ponto em diante (produção da prefeitura, assessoria da gravadora e conhecidos da banda) e no Brasil todo mundo conhece todo mundo, logo o camarim foi rodeado por uma pequena multidão, que se apinhava nas escadarias do monumento pra tentar ver alguma coisa.Uma senhora de cabelos grisalhos parecia realmente empolgada com a possibilidade de conhecer o trio. “Vai lá, mãe, você consegue”, incentivava a filha, já balzaquiana. Uma outra senhora saía, toda emocionada: “eu conheci o Arnaldo, a Zélia, o Sérgio beijou a minha sobrinha”, comentava, chacolhando a garotinha.

E aí eu lembrei de toda aquela moçada empoleirada no busão, tentando se divertir por algumas horas sem saber direito como nem por quê. Será que teriam saído diferentes dali? Teriam experimentado o que essas pessoas, pequenos registros emocionais da história da música popular brasileira, sentiram?

Tomara que sim.

Margens plácidas o caralho

Publicado: 27/01/2007 em Uncategorized


O show da Nação Zumbi já havia começado quando embarquei num ônibus pós-chuva na Paulista rumo ao Museu do Ipiranga. Eu e mais a torcida do Palmeiras versão emo. Três paradas na própria avenida foram suficientes pra abarrotar o busão de adolescentes enlouquecidos prontos para o show dos Mutantes, embora nem eles tivessem muita noção do que iam ver: “eles não tocam faz tempo, é?”, indagava um deles.

O rosto do cobrador ficava visivelmente atordoado a cada maluco que adentrava o coletivo (uma menina perguntou: “alguém tem balinha?”). Logo o motorista percebeu que ia ter que seguir direto para o Parque da Independência, sem parar. A prefeitura não se dignou a criar um esquema especial de transporte para o evento, então tinha mais gente fora do que dentro. Mas enquanto o ônibus passava reto nas paradas, o rosto das pessoas passava de irritado a excitado assim que via a multidão espremida que rumava para o show.

Tom Zé aqueceu bem a galera e deixaria o Chorão com vergonha de tanto que fez o público mandar um monte de gente tomar naquele lugar. Rasgando a roupa, pintando-se feito palhaço que caiu da mudança e destilando o repertório de “Danc-Eh-Sá”, Zé fez um mar de cerca de 30 mil cabeças borbulhar para o que se seguiria.

E o que se seguiria, bem, foi simplesmente a melhor banda de rock brazuca que eu já contemplei em minha parca existência.

Até mesmo quem não tinha nascido quando os Mutantes já tinham se separado conseguiu se emocionar com um Dom Pedro com cara de psicótico e um Padre Anchieta mais sereno, respectivamente Sérgio e Arnaldo entrando no palco. Zélia Duncan estava ali porque, simplesmente, os garotos precisavam de uma figura materna. Zélia casava seu gogó com os jogos de vozes tão típicos da banda setentista e arriscou pouco liderar o coro – até porque, quando isso acontecia, era a Zélia Duncan cantando com os Mutantes, não adianta. Ela mesma, em momento algum, tomou o cedro de estar no centro do palco: fugia da luz principal, dava as costas para o imenso público e chegou a ir lá atrás, com os backings, onde parecia se sentir mais à vontade. Procurava o abraço dos irmãos Dias como reafirmação constante pra estar ali. Enfim, foi sincera com a história.Mas no todo, a coisa funcionava muito bem. Bem ensaiada e bem entrosada.

O caldo sonoro produzido por Dinho na batera e o novo baixista fez muito moleque entender o que foi, é e será um rock and roll decente. Sérgio e Arnaldo pouco pareciam enferrujados. A backing vocal, uma princesinha loira com voz lisérgica, rasgava os solos vocais que um dia foram de uma Rita Lee adolescente. E o desafino da guitarra, a letra de “Balada do Louco” que Sérgio esqueceu duas vezes seguidas e alguns outros problemas do gênero foram importantíssimos para que o meu cérebro processasse o todo: aquilo era real.

O brado, meus caros, foi retumbante. E é claro que não caberia num único post…

Nadando atrás do dólar

Publicado: 23/01/2007 em Uncategorized


Que Kurt Cobain é o defunto mais lucrativo a história do rock, todo mundo já sabe. Notícia sobre o Nirvana, então, vende tão bem que nem esse espaço aqui perde a chance de fazer uma divulgaçãozinha, já que somos lidos nos Estados Unidos, em Barcelona e até no Brasil, não é mesmo?

Pois bem, entre as novidades da Nirvana Corporation, depois do incrível CD com canções de ninar e do DVD “Live! Tonight! Sold Out!”, está um filme baseado no livro “Mais Pesado Que o Céu”. A obra, aliás, é muito boa, embora um tanto tendenciosa. Tão tendenciosa a ponto de Courtney Love gostar da versão do autor Charles Cross, que a coloca como mártir da história, e comprar os direitos do livro para transformá-lo em um longa. Como Ms. Love não é boba, tá de olho é em Ewan McGregor e anda xavecando o moço com a desculpa de que ele é perfeito para interpretar seu finado marido magricela.

Mas a novidade mais incrível foi trazida pelo site da revista Rolling Stone: estão preparando um espetáculo da Broadway, não sobre Kurt, mas sobre todos os astros que morreram com 27 anos. Você sabe, existe essa maldição no mundo do rock: Hendrix, Morrisson, Joplin e Cobain, entre outros, bateram as botas com essa idade (tem até comunidades no orkut sobre isso).

O enredo do show, segundo a RS, seria Kurt chegando no “céu” e encontrando os outros astros.

Nossa, que empolgante…

Só pra terminar: falando em Rolling Stone, esqueci de bater palmas pra edição brazuca desse mês. Uma foto enorme do Rodrigo Santoro na capa ajuda (mesmo que não seja especialmente pra revista), mas o recheio também é extremamente recompensador. Tem matéria com Robert Plant (o assunto é a caixa “Nine Lives”, já adiantado aqui), com os remanescentes do Doors, perfilzão da atriz Hermila Guedes (a Suely, ela mesma, daquele céu lá), big entrevista com Zé Dirceu e a matéria de capa, também muito boa. Pela primeira vez senti que a publicação valeu cada centavo investido.

A turma do Audioslave e Zack de La Rocha dão os dedinhos e fazem as pazes
“Você deve ter ouvido os rumores, foi confirmado hoje de manhã pelo LA Times e pela rádio KROQ. Rage Against the Machine estará encabeçando o Coachella Festival. Novas informações serão postadas em breve”.
Vi a notícia no blog do Lúcio Ribeiro e corri no site oficial pra confirmar.

Rage is baaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaackkkkk!!!!

O Coachella Valley Music and Arts Festival é o evento indie americano mais bombado e rola no final de abril. Parece que o Chris Cornell vai ter que dar um breve pause no Audioslave. Mas é por uma boa causa…


Certa vez estava discutindo com um amigo (um daqueles que o PEAVD deve exterminar, hehehe) os possíveis motivos pelos quais o jornalismo musical virou algo tão pasteurizado e supérfluo. Chegamos a uma conclusão, talvez não definitiva, mas plausível: porque perdemos as referências. Não só pelos cinco minutos dos clipes e pela rapidez da informação via net, deixamos de admirar capas dos álbuns que nos traziam um universo de referências, se um músico cita alguma obra de literatura famosa (algo cada vez mais raro também) ninguém vai entender, enfim, viciamos na música pela música, que é incrível, mas parece correr cada vez mais atrás do próprio rabo.

Por outro lado, muitas vezes diamantes brutos ficam perdidos entre o quinhão do hit parade e parece que não tem nenhum garimpeiro com talento o suficiente pra lapidar a bagaça.

Bem, deixe-me apresentar um deles: Simon Reynolds.

Eu andava curiosa pra saber porque a maioria da imprensa tinha pulado direto do primeiro livro da coleção Iê-iê-iê, da editora Conrad, que tinha textos de Lester Bangs, para o quarto volume, “Beijar o céu”, do Reynolds. Decidi fazer o mesmo e fica impossível não notar a ponte evolutiva que existe entre os dois: Reynolds nos traz um panorama dos anos 90, sem as febres delirantes de Bangs, inapropriadas para anos de Radiohead e Nirvana, mas igualmente excitante.

O motivo, caro leitor, parece também simples: como o próprio nome do livro diz, o autor transcende a corrida atrás do rabo, a música pela música. Com referências que vão de teorias psicanalísticas à mitologia arcaica, Reynols nos mostra uma comparação de Nirvana x Pearl Jam extremamente sóbria; arranca Kurt Cobain de seu útero imaginário e dá à luz a uma brilhante resenha; destroça a história dos Smiths e de Radiohead de forma genial e ainda sobra tempo para explicar as intensas relações entre a cultura rave e os rituais de iniciação usados por sociedades pré-cristãs.

Nem tudo são pérolas, claro; habitué dos semanários, Reynolds vomita algumas resenhas a toque de caixa, especialmente do mundo rapper. Mas é difícil fechar o livro e sentir que você não levou uma aula de jornalismo cultural foda-pra-caralho na fuça.