Margens plácidas o caralho

Publicado: 27/01/2007 em Uncategorized


O show da Nação Zumbi já havia começado quando embarquei num ônibus pós-chuva na Paulista rumo ao Museu do Ipiranga. Eu e mais a torcida do Palmeiras versão emo. Três paradas na própria avenida foram suficientes pra abarrotar o busão de adolescentes enlouquecidos prontos para o show dos Mutantes, embora nem eles tivessem muita noção do que iam ver: “eles não tocam faz tempo, é?”, indagava um deles.

O rosto do cobrador ficava visivelmente atordoado a cada maluco que adentrava o coletivo (uma menina perguntou: “alguém tem balinha?”). Logo o motorista percebeu que ia ter que seguir direto para o Parque da Independência, sem parar. A prefeitura não se dignou a criar um esquema especial de transporte para o evento, então tinha mais gente fora do que dentro. Mas enquanto o ônibus passava reto nas paradas, o rosto das pessoas passava de irritado a excitado assim que via a multidão espremida que rumava para o show.

Tom Zé aqueceu bem a galera e deixaria o Chorão com vergonha de tanto que fez o público mandar um monte de gente tomar naquele lugar. Rasgando a roupa, pintando-se feito palhaço que caiu da mudança e destilando o repertório de “Danc-Eh-Sá”, Zé fez um mar de cerca de 30 mil cabeças borbulhar para o que se seguiria.

E o que se seguiria, bem, foi simplesmente a melhor banda de rock brazuca que eu já contemplei em minha parca existência.

Até mesmo quem não tinha nascido quando os Mutantes já tinham se separado conseguiu se emocionar com um Dom Pedro com cara de psicótico e um Padre Anchieta mais sereno, respectivamente Sérgio e Arnaldo entrando no palco. Zélia Duncan estava ali porque, simplesmente, os garotos precisavam de uma figura materna. Zélia casava seu gogó com os jogos de vozes tão típicos da banda setentista e arriscou pouco liderar o coro – até porque, quando isso acontecia, era a Zélia Duncan cantando com os Mutantes, não adianta. Ela mesma, em momento algum, tomou o cedro de estar no centro do palco: fugia da luz principal, dava as costas para o imenso público e chegou a ir lá atrás, com os backings, onde parecia se sentir mais à vontade. Procurava o abraço dos irmãos Dias como reafirmação constante pra estar ali. Enfim, foi sincera com a história.Mas no todo, a coisa funcionava muito bem. Bem ensaiada e bem entrosada.

O caldo sonoro produzido por Dinho na batera e o novo baixista fez muito moleque entender o que foi, é e será um rock and roll decente. Sérgio e Arnaldo pouco pareciam enferrujados. A backing vocal, uma princesinha loira com voz lisérgica, rasgava os solos vocais que um dia foram de uma Rita Lee adolescente. E o desafino da guitarra, a letra de “Balada do Louco” que Sérgio esqueceu duas vezes seguidas e alguns outros problemas do gênero foram importantíssimos para que o meu cérebro processasse o todo: aquilo era real.

O brado, meus caros, foi retumbante. E é claro que não caberia num único post…

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comentários
  1. Anonymous disse:

    HAHAHAHAH “Torcida do palmeiras versão EMO!” ADOREI Essa parte! hahauhauhauhau… acredito que essa tenha sido uma experiência transcedental.Bjos!

  2. Giul Martins disse:

    aquela backing tinha que estar é lá na frente no lugar da zélia duncan, tamanha a qualidade vocal da guria pra contratacar a hoje desencantante rita lee foi passear… e espero que vá pra portugual de navio… porque, ave gengis khan, o show agora é do, à época apagado, serginho guitar hero…então tragam lúcifer pra mim em uma bandeja… porque o meu dinheiro acabou e eu vou cantar o rock and roll…Pô, astronauta!!!

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