Yoko Ono – uma não-visita

Publicado: 15/01/2008 em Uncategorized

Sem sol, sem grana e sem nada pra fazer, decidi por fim visitar a retrospectiva da Yoko Ono, ainda em Sampa, no último sábado. As nuvens se acumulavam, mas, mesmo assim, eu e meu namorado decidimos ir de metrô e aportamos na praça da Sé rumo ao esquisito.

No meio do passeio, desviando de tecladistas de forró e evangelizadores de todo tipo de seita, um simpático engravatado nos convidou a entrar para conhecer a Bolsa de Valores de São Paulo. O calor massacrava lá fora e eu vislumbrei um ar condicionado pra tomar fôlego no meio do caminho.

Tudo muito bonitinho, ações mostravam quanta gente ganhava e perdia dinheiro no lugar, uma turnê histórica e, quando a gente voltou à porta, o mundo caía do céu. Tentamos por mais um quarteirão chegar ao CCBB, mas fomos obrigados a parar em um boteco. E nada seria mais providencial para esperar o temporal passar do que uma, duas, algumas cervejas. São Pedro parecia empolgado, então desce um risole e aquela pimentinha sarada, que quase me fez ver estrelas, e desce mais cerveja.

Quando a chuva saiu de cena, a vida era só felicidade e eu fui logo me encantando com a primeira instalação da exposição, que faria Paulo Coelho se remoer de inveja: a artista ensinava você a colocar pedrinhas de um lado que lembrassem coisas tristes e, do outro lado, pedrinhas para cada momento feliz. Achei bonito aquilo, sabe? Mal sabia eu que o local estava repleto de “pequenas instruções para a vida” coladas pela parede. Algumas, confesso, até fizeram sentido. De verdade.

A parte mais divertida, no entanto, foi negada a nós, reles mortais brasileiros, que são justamente as instalações em que, na teoria, poderíamos interagir. Nem na tal escadinha que o Lennon subiu e leu o “sim”, que ela diria posteriormente no pseudo-altar pra ele, não pudemos subir (duvido que era a mesma, enfim). Mas a essa altura as obras de Yoko se pareciam com um útero quentinho e lúdico, e as referências à mãe fariam Freud gargalhar no boteco quando alguém discutisse a relação dela com o ex-Beatle.

Conforme subia as escadas e seguia em frente, no entanto, tudo ganhava um sentido tenebroso manchado de sangue e abstracionismo, um quê de levante político e bom-mocismo, e a cerveja bateu no rim e eu fui desaguar a alegria no banheiro. Na última instalação, “Espécies em extinção”, que mostra a escultura de algumas pessoas morrendo de fome e/ou de dor, o guarda, solitário, puxou papo com a gente e contou que gosta de pregar uma peça em alguns visitantes, dizendo “o duro é quando o do meio se mexe”.

E essa foi a melhor definição pra mim da exposição até a gente chegar no metrô e encontrar quatro baldes esparsos, pretos, colocados para conter goteiras. E comentamos quase em uníssono que, se alguém colocasse uma plaquinha na frente escrito “Sem Título”, com a assinatura dela, todo mundo ia acreditar.

comentários
  1. bruno disse:

    Só pra deixar registrado: “sem título” deveria ser o título de todas as obras de arte, instalações, ou coisa que o valha. Aliás, vale dizer que a exposição “o(s) cinético(s)” foi beeeeeeeeeeem mais legal! Pelo menos pra mim, essa criança lúdica eterna.

  2. Fran Micheli disse:

    mas que coisa!eu to prestes a visitar uma exposição aqui na Zelandia de um loco q esculpiu em ceramica um show dos DE BITOUS .. com platéia e tudo. Prometeo que te mando foto.bjocas

  3. Di Giacomo disse:

    hahaha. Por um momento tinha entendido que você tinha gorfado na exposição. Ia ser irado!

  4. Giul Martins disse:

    valeu mais o relato pré e pós exposição do que a parte do gancho mesmo!!!

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