Arquivo de março, 2008

O tédio das vidas opostas

Publicado: 29/03/2008 em Uncategorized

“O blues é um estilo de música nascido da união entre as culturas folk africana e européia, concebido na escravidão e criado no delta do Mississippi. Tem sua própria escala, suas próprias leis e tradições, e sua própria linguagem. Do meu ponto de vista, é uma celebração do triunfo sobre a adversidade, cheio de humor, duplo sentido e ironia, e raramente – se é que alguma vez – é deprimente de se ouvir.”

Eric Clapton, A Autobiografia

“Estratégia!”
Tim Maia, aos músicos da banda no meio de qualquer show, dando o sinal para sumirem do mapa

Leitura obrigatória, leve e indolor é Vale Tudo, de Nelson Motta, biografia do síndico mais rock and soul do Brasil. Em papo de amigo, de boteco, Motta constrói uma narrativa despretensiosa, bastante pontuada de fatos, como bem lembra a sua formação jornalística. O autor releva deslizes e nos entrega a imagem de um Tim Maia bonachão, sem passar (muito) a mão na cabeça. Não consigo imaginar alguém levando a cabo a impagável tarefa de reconstituir de forma séria a vida do músico mais irresponsável e nato do Brasil. Vale também por ser uma aula de Música de Povão Brasileira.

Como emendei uma biografia na outra, decidi colocar as duas em um balaio apesar de não terem muito em comum, aparentemente. Eric Clapton – A Autobiografia não é tanto do que parece ser, mas por isso mesmo nos leva até o final. Marcada pela luta do guitar hero com o alcoolismo, a escrita de Clapton nos remete a um passado borrado, salvo às vezes por diários que o guitarrista manteve.

Para os amantes da guitarra, eu diria que é um livro fundamental: metódico e perfeccionista, o músico narra em detalhes os seus primeiros modelos de guitarra, as dificuldades que encontrou em tocá-las, e suas escolhas por instrumentos ao longo da vida. A relação dele com suas Stratocasters parece mais vívida em sua lembrança do que boa parte dos momentos que passou ao lado de Pattie Boyd, ex-mulher de George Harrisson, outra obsessão que carregou por quase toda a vida.

Sim, está tudo lá: seu desejo pela mulher do amigo, a conquista e os barracos. Há também a morte de Steve Ray Vaughan, as sessões com Bob Dylan e os Beatles, e tudo o que apetece um bom amante do rock. Mas, acima de tudo, há as inúmeras perdas pela irresponsabilidade de viver eternamente na contramão.

E é na irresponsabilidade que Clapton e Tim Maia se encontram. Os rumos, no entanto, foram opostos: enquanto o guitarrista decidiu reverter a situação e tornou-se um confortável pai de família, que joga golfe e compra navios, Tim Maia não viu tanta necessidade assim de prolongar sua estadia por aqui, e pisou no acelerador.

E é irônico como a narrativa de Clapton perde força a partir do momento em que ele se torna um cara comum. Salvo brilhantes insights de considerações finais, como essa linda reflexão sobre o blues, viver no limite da velocidade permitida parece coisa de novela das oito. Por outro lado, Motta acaba por burocratizar a loucura de Tim Maia pela repetição de vezes em que o leitor acompanha o dia de alguém que acorda, “torra umzinho”, cheira umas boas carreiras, demite a banda e, às vezes, desiste de ir aos seus próprios shows.

Conclusão? Não importa se sou eu, você, o Tim maia ou o Eric Clapton: o tédio não vem da vida, mas da maneira que você a conta.

Falando em prodígios…

Publicado: 28/03/2008 em Uncategorized

Esse moleque toca pra caráleo. Vitor Araujo, 18 aninhos, e sua versão de Paranoid Android, do Radiohead.

O que eu faço, tio?

Publicado: 23/03/2008 em Uncategorized

Talvez eu esteja ficando velha, pensando nos meus sobrinhos, afilhados e futuros filhos que não pretendo ter, mas me chocou de forma brutal a matéria da Rolling Stone desse mês sobre o adolescente gaúcho que teria sido uma grande revelação musical. Conhecido artisticamente como Yoñlu, o menino se matou com a ajuda online de um fórum de suicídio, e a revista esteve lá para reconstituir a vida do garoto-prodígio em uma matéria de SETE páginas e resenhar seu álbum, bem ao lado dos irmãos Cavalera, com generoso espaço na seção de lançamentos.

Chocou porque, apesar de deixar claro o tempo todo o quanto o tal artista poderia ter sido, o quanto era admirado pelo mundo afora por DJs e músicos e amado por pais e amigos e teria uma vida frutífera se não fosse vencido pela depressão, sou obrigada a me arremessar novamente na minha própria mente aos quinze anos. Sou jogada novamente nessa fase de auto-estima duvidosa, por ora brotante, em sua maioria inexistente, e lembrar do quanto venerava as revistas de música brasileira e o quanto eu gostaria de ter sete páginas delas dedicadas a mim.
A máquina do tempo me traz de volta aos dias atuais e lembro-me de fenômenos pop de seus catorze e poucos anos, que também criaram tudo o que sabem de música e vida em seus quartos e PCs, tipo Mallu Magalhães. Sim, é possível ter sete páginas da Rolling Sone dedicadas à sua fama instantânea sem suicídio, não? Bem, Mallu ganhou meia página da seção Rock and Roll. Já é água quase passada, explorada pela mídia.
E o que eu faço, tio, se eu tiver meus belos quinze anos, hormônios relutantes, um isolacionismo do planeta e as minhas músicas na internet não me fizerem ir tocar no Coachella?

Gostaria realmente de saber o quão prosaica parece ser essa indagação. Mas eu me recuso a fechar os olhos em uma publicação desse porte para um certo tipo de responsabilidade, um certo tipo de ética perante a molecada que, cada vez mais cedo, tem descoberto o mundo em todos os sentidos possíveis que a tecnologia permite.
Demorei a comprar a revista porque nutro um desinteresse jornalístico pelos irmãos Cavalera desde que tive uma frustrada entrevista com o baterista, do qual era fã incondicional (ainda não contei isso aqui, né?). O que prova que, pelo menos, não colocaram chamada na capa sobre o assunto pra chamar (mais) atenção.

Cronistas melódicos

Publicado: 14/03/2008 em Uncategorized
Violins e sua divina comédia anárquica

A maioria das bandas brazucas entra ou já entrou um dia no terrível dilema entre cantar na língua-mãe ou partir para o inglês, berço do rock. Muitas argumentam que o roque soa melhor in English. Mas a real, real mesmo, é que escrever belas letras em português é uma arte a que poucos se mostram aptos. É preciso ter veia de poeta, veia de músico e, mais que tudo, veia de cronista. Uma boa letra não precisa ter muitas palavras; mas é imprescindível ter muita história pra contar. Tipo aquela lenda de que desafiaram Hemingway a escrever uma história com até seis palavras e ele a fez com maestria: “Doam-se sapatos de bebê nunca usados”.

Enfim, trago aqui duas bandas que, na minha opinião, contam belas crônicas com uma melodia deliciosa. A primeira é a banda bauruense Estereoterapia. O escritor: Josiel Rusmont. Desde o primeiro álbum, “Sobre Avenidas e Nós”, os ouvintes eram arremessados a canções arrebatadoras com letras inesquecíveis. E agora a Estereo volta com o single “Lado B, Lado A” (resenhado pelo brother Giul, no Discoteclando) e nela a maravilhosa “Roger”, que só de citar me vem à cabeça, e sua história de um andarilho indie.

A outra novidade que me chega é o novo álbum do Violins, trupe goiana que lança o quarto CD, “A Redenção dos Corpos”. O mundo dos Violins te levanta da cadeira com músicas surpreendentemente boas e letras que poderiam ser uma Divina Comédia contemporânea – mas sem o céu. O escritor: Beto Cupertino. Só pelo título das músicas já é possível ter uma idéia do universo em que transita essa banda sensacional: “Padre Pedófilo”, “Rei Pornô” (com referências a Fidel), “Terrorista Justo” e “Festa Universal da Queda”. Não é choque pelo choque, não é transgressão por diversão. No retrato anárquico do Violins, não existe coturno pra abrandar o chute. É pé descalço contra um mundo de pregos.

Credencial Tosca decreta: difícil alguém tirar desse álbum o título de melhor do ano.

Marquetingue

Publicado: 11/03/2008 em Uncategorized

“Esqueci o aniversário do Kurt Cobain
E das bandas da Inglaterra eu não conheço mais ninguém”

Cara Cool

“Por que, amigo, mudaste desse jeito?
Trocaste os irmãos por um belo par de peitos”

Tu, Amigo

“Já fui corno, já fui apaixonado
Atire a primeira pedra quem nunca foi chifrado”
Balada do Corno

“Eu não sabia dançar e você me trocou
Por um cara com requebrado
E eu ali parado, batendo o ritmo com os pés
Com os braços cruzados”
Homens Brancos Não Sabem Dançar

Nunca fomos os primeiros escolhidos nas aulas de educação física. A parede era nossa amiga nas festinhas do bairro. Mas nós crescemos, os hormônios fizeram alguns milagres e os neurônios se encarregaram de outros.

Somos felizes e agradecemos às pedras do caminho, que resultaram em algumas músicas um tanto engraçadas que nos permitem rir de tudo isso e sentar a mão no rock and roll e outras coisas que desopilam o fígado.
Se a gente ri da gente mesmo, porque você não vai rir?
http://www.myspace.com/milhouseabanda

Tic-tacs e ufanismos

Publicado: 06/03/2008 em Uncategorized

Tic Preste atenção nessa capa, querido leitor. Que a RS sempre foi política, ninguém discute. Mas, dessa vez, ela decidiu se unir a Neil Young, Bruce Springsteen e, por que não?, Eddie Vedder na luta para mudar aquele paisinho onde ela se originou, e tirar o homem que tá lá no governo, fazendo uns estragos aí. Ou eu tou exagerando? Será que a música pode mudar o mundo em pleno 2008?

Tac No filme “Viagem a Darjeeling”, os irmãos Whitman, protagonizados pelos ótimos Owen Wilson, Adrien Brody e Jason Schwartzman, se perguntam: “Se não fôssemos irmãos, será que seríamos amigos?”. Quanto aos irmãos Chris e Rich Robinson, pode-se perguntar quaaase a mesma coisa: “Se não fossem o Black Crowes, será que seriam amigos?”. A resposta, aparentemente, é não. “Fora do mundo da música, provavelmente não falaríamos um com o outro. É assim que as coisas são”, declara Rich à mesma Rolling Stone.

Tic Pode experimentar que não morde: A música “Cannot Get Sicker”, de Adam Green, o homem por trás da banda indie The Moldy Peaches, hit da trilha sonora do filme “Juno”. Torceu o nariz para a palavra “indie”? Leia de novo: jogue-se sem dó. É uma espécie de suruba entre Alicia Keys, Joss Stone, Beck e Cake. A canção faz parte do álbum solo que Green ainda não lançou, “Sixes & Sevens”: www.myspace.com/adamgreen1

Os shows do Iron

Publicado: 04/03/2008 em Uncategorized


Quem foi ao show do Iron domingo diz que foi inesquecível. O único show deles a que eu assisti no último findes foi o de bola, mesmo. Steve Harris deu banho em muito roqueiro marmanjo brasileiro e correu absolutamente o tempo todo atrás da pelota, o que resultou em gol, lógico. Bem na dele, no estilo mais britânico possível e de faixinha na cabeça, o Sr. Donzela de Ferro mostrou que não são só as mãos que fazem heavy metal. Steve Harris é metal até no chute.

Apesar de boa parte da trupe que acompanha o Iron (e que trupe) ser branco-européia-clássica, de cabelo curto e gritando bloody-whatever no meio do jogo, tem o roadie-viking enrome, de bermuda cós alta militar e brinco pendurado que parece um troço cravado na orelha, e tem o guarda-costas bombadasso cuja pela é um tapete humano de tatuagens. A galera presente parecia satisfeita de estar ao lado de uma caravana genuínamente old school.

Parte do time que estava em campo, no entanto, foi visto no show bebendo uma ceva tranqüilamente. “Viemos só pra jogar”, diziam.

– Derrick, posso tirar uma foto com você? – pergunta a tiete ao vocal do Sepultura, que foi lá conferir o futiba.
– Obrigada.
– São cinco reais – ele zoa.
– Ah, mas no show do Marilyn Manson você não cobrou nada pra eu tirar uma foto com você.
– Dez reais.

PS – Desculpem o sumiço, caro leitor. Às vezes, a vida dá reviravoltas que não cabem num blog. Não nesse, pelo menos: quem quiser conferir as peripécias de um procurador perdido na Rondônia pode acessar o blog Ocas e Mucambos (http://ocasemucambos.blogspot.com/). Eu estava ocupada ajudando nas malas dele…