O que eu faço, tio?

Publicado: 23/03/2008 em Uncategorized

Talvez eu esteja ficando velha, pensando nos meus sobrinhos, afilhados e futuros filhos que não pretendo ter, mas me chocou de forma brutal a matéria da Rolling Stone desse mês sobre o adolescente gaúcho que teria sido uma grande revelação musical. Conhecido artisticamente como Yoñlu, o menino se matou com a ajuda online de um fórum de suicídio, e a revista esteve lá para reconstituir a vida do garoto-prodígio em uma matéria de SETE páginas e resenhar seu álbum, bem ao lado dos irmãos Cavalera, com generoso espaço na seção de lançamentos.

Chocou porque, apesar de deixar claro o tempo todo o quanto o tal artista poderia ter sido, o quanto era admirado pelo mundo afora por DJs e músicos e amado por pais e amigos e teria uma vida frutífera se não fosse vencido pela depressão, sou obrigada a me arremessar novamente na minha própria mente aos quinze anos. Sou jogada novamente nessa fase de auto-estima duvidosa, por ora brotante, em sua maioria inexistente, e lembrar do quanto venerava as revistas de música brasileira e o quanto eu gostaria de ter sete páginas delas dedicadas a mim.
A máquina do tempo me traz de volta aos dias atuais e lembro-me de fenômenos pop de seus catorze e poucos anos, que também criaram tudo o que sabem de música e vida em seus quartos e PCs, tipo Mallu Magalhães. Sim, é possível ter sete páginas da Rolling Sone dedicadas à sua fama instantânea sem suicídio, não? Bem, Mallu ganhou meia página da seção Rock and Roll. Já é água quase passada, explorada pela mídia.
E o que eu faço, tio, se eu tiver meus belos quinze anos, hormônios relutantes, um isolacionismo do planeta e as minhas músicas na internet não me fizerem ir tocar no Coachella?

Gostaria realmente de saber o quão prosaica parece ser essa indagação. Mas eu me recuso a fechar os olhos em uma publicação desse porte para um certo tipo de responsabilidade, um certo tipo de ética perante a molecada que, cada vez mais cedo, tem descoberto o mundo em todos os sentidos possíveis que a tecnologia permite.
Demorei a comprar a revista porque nutro um desinteresse jornalístico pelos irmãos Cavalera desde que tive uma frustrada entrevista com o baterista, do qual era fã incondicional (ainda não contei isso aqui, né?). O que prova que, pelo menos, não colocaram chamada na capa sobre o assunto pra chamar (mais) atenção.
comentários
  1. Gabriel Ruiz disse:

    Sensacional essa postagem. SUas reflexões são muito boas, e elucidativas.Gostaria muito de saber a estória da entrevista com o Cavalera…um abraço

  2. Discoteclando disse:

    Minha cara amiga, discutir o ideologismo rollingstonebrasileiro é algo que magoa se pensarmos no que o original já foi há tempos… mas isso é outra história… o que pegou na sua escrita fora do conteúdo central foi a gula de saber sobre essa coisa cavaleristica…rs.

  3. Karina Bueno disse:

    Já tinha lido sobre esse garoto na Época… que história, não?O post ficou ótimo. Parabéns!Bjo

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