Pela Nossa Senhora de Aretha Franklin

Publicado: 17/06/2008 em Uncategorized

Agradeço a Santa Etta James pela graça alcançada.

Mesmo que essa graça tenha atrasado 55 minutos, custado R$ 150 e me dado o direito de freqüentar apenas os últimos três degraus da Via Funchal, com um cercadinho que me separava da massa abonada que pagou mais e, portanto, viu mais. Mas tudo isso virou borrão quando uma sílfide sorridente, cobrindo o rosto de vergonha com as mãos adornadas por pulseiras prateadas, sorriu pra mim. Sem chapinha nem baby liss, com a displicência de produção compensada por um vestido justésimo e prateado, no melhor estilo dance music dos anos 70. E foi assim que o transe começou.

Agradeço por todos os discos de 78 rotações que já vieram dentro desse ser, pela voz absurdamente encorpada e pela escolha de uma banda fodástica. Que conseguiu transformar até mesmo um disco irregular, o “Introducing Joss Stone”, em uma festa de soul e R&B. Canções do novo álbum como “Girl You Won´t Believe It” e “Tell Me What We´re Gonna Do Now” ganharam roupagem totalmente setentista e deram cama para que o naipe de metais jogasse logo na quarta canção “Supper Dupper Love”. Se tornar-se pop é começar um show assim, Deus, que ela seja pop para o resto da vida. De cabelos pintados mesmo.

Joss cresceu, no sentido mais belo que isso pode ter. Aprendeu a dominar o palco, a seduzir a platéia, e ao mesmo tempo não perdeu aquele ar inocente com direito às famosas crises de riso. Aceitou oferendas como pulseiras, rosa branca, correntinhas, e em troca das ofertas concedeu um show que fez crescer alma até nos pilares do local – os mesmos que segregavam o público.

O bumbo ganhou ares abafados, o baixo aquietou-se, e a explosão de soul dos primeiros tempos deu lugar a alguns teclados (algumas vezes inoportunos, diga-se) e muito rhythm ‘n’ blues. E, acredite: quando aquela Iemanjá negra em forma de garota canta baixinho “Jet Lag”, apenas acompanhada de uma bateria mínima no melhor estilo R&B anos 50, pés descalços e olhos fechados, você vai ser obrigado a pedi-la em casamento. E dar o braço a torcer: Joss Stone faz música, e música boa. Nunca duvide disso.

Da fase soul o público ganhou hits como “Fell in Love With a Boy”, “Choking Kind”, “You Had Me” e, ao mesmo tempo, pôde se deliciar com as igualmente sincopadas “Put Your Hands on Me Baby” e “Baby Baby Baby”, do novo trabalho. A boa menina xinga “Damn it” por não falar português além dos básicos “oi” e “obrigado” mas, mesmo assim, fez questão de deixar sua liturgia poderosa.

“Acho que o que nos une aqui é a paixão pela música. Eu amo tanto a música, mais do que eu poderia amar uma pessoa. Ela nunca vai ter machucar, e ela sempre vai te amar, enquanto você amar a música também”. Amém. E dá-lhe “Music”, que no novo álbum tem a parceria de Lauryn Hill, mas que no show só sobram mesmo alguns trejeitos rappers nas mãos de Joss. A melodia cresce e o trio de backings da diva respaldam seu vozeirão. Como se não bastasse tudo isso, ao voltar para o bis, “Right to be Wrong”, emenda “No Woman no Cry”, uma de suas canções favoritas, e joga flores vermelhas para a platéia, como uma Afrodite em sua fase mais serena.

Pela Nossa Senhora de Aretha Franklin, Joss Stone. Puta que pariu!!!!

comentários
  1. Tat disse:

    caralho, anita!!! vc descrevendo é tão lindo como COM CERTEZA foi esse show!amém, fia, amém!!!!

  2. Pauleka disse:

    Concordo com absolutamente tudo!

  3. Conrado disse:

    Eita! Lendo o que você escreveu, quase tive os mesmos arrepios que estava tendo durante o show!Quero mais Joss!

  4. Discoteclando disse:

    Puta que pariu Ana!!!Tu vai me fazer voltar a ouvir a negrinha branquela denovo com esse texto extremamente visceral e apaixonado!!

  5. Fran Micheli disse:

    eu fiquei arrepiada soh de ler isso. Fia, eu dava o toba pra ir no show dela. Facil. que sorte. que sofisticacao ir no show da nega.bao, espero q esteja td bem ai coce!! em breve te mando mais noticias da jornada intrepida no meio do nada no pais-do-kiwi-e-da-falta-de-tecnologia.BJOOOOOOOOOOOOO

  6. Fabrício disse:

    Não deveria ter lido isso!Já tinha superado o fato de não ver a Joss ao vivo.

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