Luz, câmera, rock and roll

Publicado: 06/02/2010 em Uncategorized




Em um mundo descortinado por fotologs e flickrs, expandir imagens em paredes, ampliá-las em páginas, tocá-las pode ser considerado um prazer raro. E o prazer foi todo meu ao me lambuzar de música enquanto devorava as páginas de “Rock and Roll”, livro da lendária fotógrafa Lynn Goldsmith.


Responsável por trabalhos antológicos em veículos como Time, Newsweek e, claro, Rolling Stone, Lynn tem um elemento essencial para o sucesso de fotos tão históricas: uma profunda devoção à música – e não aos músicos. Seu único texto no livro deixaria muito jornalista da área no chinelo pela forma como condensa em poucas palavras o sentido que as notas musicais fazem a cada um de seus poros.


Mas é na fotografia que ela melhor expressa sua visão do assunto. Lynn priorizou pulos, remelexos e muito suor em sua escolha, como uma forma de mostrar que arte é mesmo muito mais transpiração que inspiração. E deixou o mito em segundo plano: não há legendas nas fotos; se quiser descobrir quem é o figura se esgoelando no palco em questão, terá que ir ao fim do livro à procura da descrição da imagem. O que se torna um exercício muitas vezes divertido: ao encontrar Marianne Faithfull drogada no banheiro com um colar de pérolas, juro que a confundi com Courtney Love.


A seqüência que precede o prefácio (escrito por Iggy Pop, diga-se) já é de tirar o fôlego, com figurões do primeiro escalão. A mais curiosa das fotos, pra mim, foi uma das famosas botas dos Beatles. Ela explica: como grande fã dos Stones, se recusava a fotografar os Fab Four. A saída foi genial.


E como boa trabalhadora pré-era digital, Lynn soube tirar proveito do espelhamento de páginas melhor do que ninguém, utilizando-as como reflexos e interconexões. Assim, o leitor encontra um 69 entre Elton John e Keith Emerson, ambos ao piano; Sting e Freddie Mercury fazendo uma dobradinha de reis com suas coroas; Michael Jackson e Marvin Gaye descortinando o próprio peito, entre outras peculiaridades.


Se o destaque fica por conta dos saltos ornamentais no palco, a fotógrafa também traz boas surpresas nas fotos posadas, como um Grand Funk Railroad peladão (ok, nem tão boa assim, hehehe). Frank Zappa, em especial, proporciona as melhores brincadeiras com a câmera. Há verdadeiras galerias de David Byrne, Patti Smith, Bruce Springsteen. Mas há também um espaço especial pra velha guarda com belas imagens de James Brown, Bo Didley, Fats Domino, B B King e Chuck Berry.


Enfim, a obra é feita para quem, mais do que amar os roqueiros, ama o rock and roll. E é disso, no fim das contas, que precisamos nos lembrar ao fechar os olhos enquanto nos apaixonamos por uma música.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s