Arquivo de outubro, 2010

Ei, SWU… Parte 2

Publicado: 12/10/2010 em Uncategorized

WHERE IS MY MIND?

Foi mais por uma questão monetária que estratégica, mas foi bom não ter ido ao segundo dia do evento – e quem me acompanha aqui há tempos sabe como sou fascinada pela voz de Joss Stone e pelo pop fusion da Dave Matthews Band. Mas recompor o organismo foi fundamental pra que suportássemos o dia 3. A mochila, que no primeiro dia foi leve em termos de comida, ganhou reforço de lanches e bolachas pra evitarmos a praça de alimentação do local; e nem mesmo as duas revistas a que ela foi submetida foi capaz de retirar um pacote de Trakinas e dois sandubas de salame da bolsa dessa farofeira que vos fala.

Chegamos cedo a ponto de ouvir uma das primeiras bandas, o Gloria, tocar enquanto fazíamos a costumeira diáspora até o local. “Anemia” tinha acabado de ser anunciada quando nos deparamos com um aglomerado gigante de pessoas na entrada. Decidiram reforçar as revistas e, por isso, perdemos das 15h40 às 17h20 para ENTRAR no local. Nada andava, nada se movia, a não ser pacotes de bolacha e bandejas de comida que, barradas na revista, eram atiradas pra trás e pro alto – e retribuídas com comida que voava dos fundos da fila pra frente. Quem pegasse o pacote de bolacha no ar era saudado com palmas.

Conseguimos ver metade do divertido show dos Autoramas, com guitarra absolutamente no talo e uma platéia em delírio, com direito a dancinha do batera Bacalhau e o animado frontman Gabriel. Assisti calmamente sentada na minha digna canga de Porto Seguro ao Cavalera Conspiracy, que não foi capaz de me emocionar nem mesmo com “Attitude” ou “Roots Bloody Roots”. O som da bateria embolado não dava margem para a metralhadora que saía dos pés de Iggor, e Max não alcança mais os agudos. Surpreendi-me mesmo com o Avenged Sevenfold, com uma apresentação de responsa e o batera Mike Portnoy que não nos faz sentir saudade do Dream Theater.

Creio que essa apresentação tirou o A7X, como é carinhosamente chamado pelo gigantesco fã-clube que tem, do mundo dos iniciados para a grande massa metaleira do Brasil. A definição “metal melódico” usada por muitos jornais pode ter assustado a princípio alguns camisas pretas que, se forem espertos, depois desse show vão correr atrás da banda. Mais espertos, espero, que uma garota que se aproximou da gente perguntando quem era.

– Aven o quê?

-Avenged Sevenfold.

(cara de interrogação)

-Nossa, nunca ouvi falar.

Dessa vez, deu tempo até de ir ao banheiro – e, pasmem, ele estava limpo, e tinha papel higiênico.

O Incubus novamente serviu de estratégia para esperar pelo Queens. Espera gigante, amassada, de mais de uma hora. Mas bem recompensada. É, Josh Homme, fazia muito tempo mesmo, não? De cara, fomos presenteados com as faixas iniciais do antológico “Rated R”: “Feel Good Hit of the Summer” e “The Lost Art of Keeping a Secret”. E lá se foram petardos ladeira abaixo: “Sick Sick Sick”, “I think I Lost my Headache”, “Go With the Flow”, “No One Knows”, “A Song for the Dead”. Alguns enlouqueciam; outros gritavam “essa eu sei”. Guitarra impecável, banda escaldada, baixo e batera com caldo de sobra. Se não era uma platéia dominada, tornou-se uma platéia rendida.

E não sobrou tempo pra respirar. Sem perder um segundo, o Pixies iniciou o show em seguida com “Bone Machine”. Dessa vez, com o palco à esquerda (Água), foi possível se afastar e ver o show pela lateral. Tinha gente até em cima de árvore. O clima, no entanto, estava mais para “festa do Peão de Itu”, com muita gente circulando, sem saber direito o que fazer. “Wave of Mutilation” comia solta e a ala dos fundos do SWU parecia estranhar nós, que dançávamos e cantávamos ao som dos tiozinhos, e de uma Kim Deal morena e bem fofinha, com cara de parente distante. Não faltaram “Debaser”, “Monkey Gone to Heaven”, “Here Comes Your Man”, “Allison” e todos os outros biscoitos que o Pixies reservou para os fãs de meia-idade. Uma emocionada “Where is my Mind”, já no bis, foi cantada pelas bocas esfumaçadas pelo vento frio e os menos de 10 graus.

“O Linkin Park já cantou?”, perguntava o tio do estacionamento. Não, eles estavam apenas começando. “Vocês não gostam de Linkin Park, é?”, questionava o bom senhor.

Eu queria, com todo respeito, que Mike Shinoda e seus amigos fossem pra qualquer lugar do mundo àquela altura. Eu estava indo embora daquilo pra sempre, sem trânsito, e isso era a única coisa que importava naquele momento.

Ei, SWU… Parte 1

Publicado: 12/10/2010 em Uncategorized

CALM LIKE A BOMB.

Difícil ler dois textos com informações parecidas sobre esse festival monstruoso (em todos os sentidos possíveis) que assolou nosso planeta São Paulo nos últimos dias. Abalou tudo o que conhecíamos e estávamos acostumados em Pacaembus, Morumbis e Arenas da vida, tirou todo mundo do prumo e não deixou muita alternativa. O saldo varia a cada veículo: faltou água x teve banheiro, sem ocorrências graves x tumulto generalizado. Talvez por isso eu tenha reanimado esse velho blog pra contar, aqui, como foi o meu SWU. O primeiro e, provavelmente, o ultimo. Fui obrigada a engrossar o caldo dos que cantavam “Admirável Gado Novo”, de Zé Ramalho, enquanto esperávamos loucamente por Queens of the Stone Age, ontem.

“Já esteve em Aparecida? É igual”, zombava um ambulante, durante a peregrinação do estacionamento (o mais próximo possível) até a entrada do festival – apelidada por nós singelamente de “diáspora”. Se ao primeiro dia os vendedores e cambistas se mostravam tímidos com as placas de proibição nesses quilômetros, no último já havia pequenos minibares e barraquinhas à vontade. O motivo é muito simples: não havia uma única alma da organização ou da segurança por lá, tanto de dia como à noite. Bom para os ambulas, péssimos pra quem avistava um matagal gigante e nenhum policial em um raio de muitos, muitos quilômetros. Fora a ausência de lixeiras, que fez com que no terceiro dia Ilha das Flores parecesse mais bonita que aquilo.

De espírito preparado para filas gigantes, um tanto de espera e muita paciência pra obter comida e breja, fui surpreendida com a desorganização da bagaça. No primeiro dia (09), ficamos 40 minutos no balcão esperando um cachorro-quente que não veio. Veja bem: eu não estava numa fila interminável, eu estava encostada no balcão. E o hot dog não veio. E daí, o que fazer com as fichas (que só conseguimos comprar porque tínhamos grana viva – pois o sistemas de cartões estava fora do ar e ninguém tinha avisado?)

Ainda bem que isso tudo foi até a hora do show dos Mutantes cover. Até então, tínhamos visto um pedaço de Black Drawing Chalks, Mallu e trechos do Infectious Grooves, banda bem capitaneada pelo vocal do Suicidal com um funkeado nervoso. E verdade seja dita: nenhum show atrasou. Uma apresentação no palco Água, à esquerda, terminava e minutos depois o palco Ar, ao lado à direita, já estava aceso e com a banda a postos.

Os palcos, a massa, a guitarra, a ira

Daí os esperados Hermanos entraram em ação e lá fomos nós tentar um lugar ao sol. Sabe aquele canto mara, na lateral do palco, em que você consegue ficar sossegado e ainda sim ver os homenzinhos minúsculos lá na frente? Esqueça essa manha. No SWU, duas torres gigantes de som e luz atrapalhavam a vista do Palco Ar (à direita) e, no meio delas, uma casa de manutenção giga-master que as ligava impedia qualquer mortal de ver o palco – um dos principais, diga-se de passagem.

Contentamo-nos em ouvir Camelo, Amarante & Cia e, a julgar por um telão bem distante, eles pareciam felizes. Bem mais que nós. O set list foi melhor que o do ano passado, na apresentação com o Radiohead, mas não me sinto capaz de resenhar um show que começou sem que eu ouvisse a bateria, o baixo e o teclado, ou sequer enxergasse alguma coisa.

O Mars Volta serviu para nos posicionarmos melhor, entre os dois palcos principais e, em nossa vã ilusão, ver o que rolava lá na frente em um local confortável. Vale lembrar, caro leitor, que como bem diz a descrição desse blog a autora aqui se considera uma rata-de-palco – com muito show do Sepultura na bagagem pra ter a noção de que precisávamos de uma margem segura para o show do Rage. Estávamos da metade da arena para trás, bem no meio. E assim, quando a sirene e a estrela vermelha surgiram, meu coração só queria saber de pular, pular muito no peito, pois uma das bandas mais geniais do rock estava prestes a soltar sua ira ali, conosco. “Testify” fez cada segundo até ali valer a pena. Uma massa gigante de pessoas pulava e bradava, e eu ia junto. Havia espaço para respirar, cantar, erguer os braços. Rodas surgiam aqui e ali. Eu era uma pessoa extremamente feliz. A catarse era completa.

Segundos separaram esse momento de um instinto de sobrevivência hediondo que assolou o meu ser, quando uma horda interminável de pessoas, comigo no meio, não conseguia conter um movimento frenético de ir e vir. Era gente demais em pouco espaço, e gente desesperada. Não havia mais como controlar para onde o corpo ia ou vinha. Por sorte, o movimento da massa foi para trás – como se o Godzilla himself atacasse Nova York. Fomos tão levados para trás que subimos até demais. A trilha sonora desse momento, soube depois, foi “Bombtrack”. Não me lembro do que tocava na hora.

O show, no entanto, prosseguiu catártico. A guitarra de Tom Morello chega aos ouvidos como uma voz de comando: é impossível resisti-la. É preciso ouvi-la, devorá-la, louvá-la a cada novo timbre, a cada som que parece vir de um outro tempo-espaço. Zack de La Rocha, após o discurso pacífico para que tomássemos conta um dos outros, movimentava as mãos para baixo, como pedindo calma. Seu corpo todo, no entanto, dizia o contrário: víamos a banda em êxtase, pulando e gritando lá em cima, e obedecíamos. Um menino com o boné do MST ao meu lado sorria. Não me lembro do discurso de Zack em “People of the Sun”. Não prestei atenção que o tal boné que a banda colocou no show era o mesmo do menino ao meu lado. Eu só queria saber da catarse, da guitarra, da ira. “Bulls on Parade”, “Bullet in the Head”, “Guerrilla Radio”, “Sleep Now in the Fire”, “Freedom”, “Killin in the Name”. O quê?

E esse sentimento sobreviveu melhor ao dia seguinte do que o meu corpo. Embora ele mereça palmas por enfrentar a peregrinação da volta, duas horas imóvel no carro, dentro do estacionamento, e mais algumas até que chegássemos em nosso destino final – em um reino muito, muito distante de Itu, graças aos céus.