Arquivo de dezembro, 2011

Conhecido por transformar trechos de sua própria vida em ficções deliciosas, como “Quase Famosos” e “Singles”, Cameron Crowe foi na contramão dos outros grandes diretores que se aventuraram em documentários musicais em 2011 e decidiu registrar em vídeo a história dos próprios amigos. Esse toque pessoal, longe de comprometer o resultado, trouxe a “Pearl Jam 20” um frescor que garantiu o primeiro lugar ao filme nesse humilde blog.

Para quem espera uma história baseada na banda que tem em Eddie Vedder um ícone, mais do que um líder, a surpresa será grande. Primeiro porque o Pearl Jam nasceu dos restos mortais do Mother Love Bone, grupo que também era feito de um líder carismático e inesquecível: Andy Wood, que morreu de overdose em 1990. O resgate da breve trajetória e das raras imagens do MLB, cujas raízes explicam o som “grunge” que tanto caracterizou uma geração de músicos, já vale o documentário. Para se ter uma ideia, o próprio Vedder só ousou cantar uma música do Love Bone no palco na comemoração de dez anos do Pearl Jam.

A partir daí, o eixo narrativo se concentra no baixista Jeff Ament e nos guitarristas Stone Gossard e Mike  McCready, que encontraram em Vedder a voz, a lírica e a intensidade que procuravam para seu som. Viram esse mesmo baixinho muito tímido, importado dos mares da Califórnia, se ambientar à cinzenta Seattle e à cena local formada por amigos de infância. Presenciaram o vocalista se agigantar nos palcos aos poucos e dominar o escopo criativo do Pearl Jam. E por fim, narra o fortalecimento da banda em meio às intempéries da linha do tempo, como as farpas trocadas com o Nirvana, a briga judicial com a Ticketmaster e a morte dos fãs no festival Roskilde.

Dos três filmes lembrados aqui, “PJ 20” é o que mais lembra uma narrativa tradicional de documentário e, ao mesmo tempo, tem aquele toque de filme caseiro, de família sentada na sala relembrando imagens que nem sabia que ainda possuía guardadas. E essa humanização só mesmo quem já passou muitas noites na sala de jantar é capaz de traduzir.

Espécie de flor de lótus gerada no meio do esterco que foi o fim do Nirvana, o Foo Fighters esperou álbuns e álbuns por sua redenção perante a comunidade musical. E exatamente um ano antes de sua apresentação em solo brazuca no Lollapalooza,  a banda de Dave Grohl, – o até então considerado  “ cara mais legal do rock” –  disponibilizou nos cinemas o documentário que, a reboque do aclamado recém-lançado álbum “Wasting Light”, traria o resgate de sua nada calma história.

Vamos muito, muito por partes.  “Back and Forth” presta, a princípio, um serviço aos fãs mais recentes, que estão acostumados a ver as caras sorridentes do grupo e todo o sucesso atual que ele alcança, e nem imagina os sacos de sal que o povo já comeu, como as idas e vindas de Pat Smear na guitarra;  a overdose do batera Taylor Hawkins; e as demissões nada amigáveis do guitarrista Franz Stahl e do baterista Willian Goldsmith. Também narra uma trajetória incrível de uma banda que surgiu de uma demo tape que Grohl gravou sozinho, ainda em meio à letargia que se seguiu ao suicídio de Cobain, e que aqueles moleques do clipe de “Big Me”, uma paródia impagável dos comerciais de Menthos, jamais imaginariam onde fosse parar.

Por outro lado, é uma biografia mais que autorizada e, por isso mesmo, mantém os dentes do ex-baterista do Nirvana brilhantes na tela. Uma outra narrativa lançada também em 2011 em livro, “This is a Call – The Life and Times of Dave Grohl”, do jornalista Paul Branningan, esclarece alguns desses episódios que o filme abranda um certo tanto. Apesar de fã declarado de Grohl, o autor consegue esmiuçar um pouco mais, entre outras coisas, como o baterista Willian descobriu que a banda toda estava refazendo “The Colour and The Shape” sem ele. Como Franz Stahl sacou, em 1997, o que Dave Grohl decidiu deixar em panos limpos só lá na frente, em One by One (2002): que aquela era banda dele, e ele decidiria no fim das contas como ela seria, por mais que adorasse que todos dessem ideias. E, entre todos os contratempos do mundo, os muitos e muitos “brancos” de criatividade que aplacaram o grupo em toda sua história.

Com uma discografia considerada pela crítica como bastante irregular, o Foo Fighters tem, no entanto, um mérito gigante na história da música das últimas duas décadas que “Back and Forth” ressalta com maestria: eles são pura celebração da festa que é o rock and roll, com propriedade técnica. Um moleque que cresce ouvindo a banda precisa se esforçar em um nível bem maior para tirar as músicas se comparado a outros grupos contemporâneos e, dado o seu alcance pop mundial, os integrantes indicam bandas um tanto decentes que a molecada deveria ouvir, antigas e novas. Sem contar a facilidade com que Grohl trafega pelos mais diversos gêneros, seja em colaboração com o Queens of the Stone Age, com seu projeto de heavy metal Probot ou em parcerias pelo mundo afora – sem a Roberto-Carlização que acomete Andreas Kisser, por exemplo.

Demorou, mas as retrospectivas chegaram ao Credencial. Vamos começar pelo Top 3 Documentários Musicais, e tio Martin Scorsese ganhou o terceiro lugar com sua tentativa de narrar a vida do beatle George Harrison em Living in the Material World.

Em “Shine a Light”, registro ao vivo de um show dos Rolling Stones capturado por Scorsese, o diretor penou para descobrir o set list de Mick Jagger & Cia. O papel só lhe foi entregue momentos antes da apresentação começar. Uma espécie de segredo guardado longe do cineasta, um desafio para que ele rebolasse nos 30 e comandasse as câmeras sem ter muito tempo para poder preparar a equipe.  E agora, nessa nova incursão do cineasta ao mundo da música, mesmo com toneladas de imagens e depoimentos, o desafio do segredo permanece.

O motivo, a princípio, é simples: uma banda de sucesso é e será sempre um segredo bem-guardado. Algo que apenas os que viveram toda a “mania” são capazes de entender e compartilhar. O próprio Ringo Starr declara isso. E Eric Clapton, uma das (tentativas de) linhas condutoras do filme, deixa bem claro que, apesar de se sentir muito amigo de George, não é capaz de dizer o quão próximos eles eram de fato.

“Living in the Material World” busca retratar os dois lados do beatle que, enquanto buscava a transcendência do corpo físico, era incapaz de resistir por muito tempo às tentações da carne. O problema é que, enquanto há centenas de imagens do rapaz na Índia, gravando mantras ou pregando a paz, pouco se revela a respeito do lado negro da força de Harrison. Paul McCartney se limita a dizer que, “como homem, ele gostava do que os homens gostavam”, e uma resignada Olivia Harrison é capaz de assumir o poder de sedução de seu falecido marido. Klaus Voorman, colega dos Beatles dos tempos de Hamburgo, assume o vício de George nas drogas e o quanto isso o consumia.  Mas só.

Lágrimas de Ringo

Outro desafio enfrentado por Scorsese foi lidar com o material já existente em imagens. Nesse aspecto, o diretor mostra momentos brilhantes ao alinhar foto e vídeo em várias passagens; trabalhar com frames aparentemente banais capturados por George, seja em seu jardim,  na praia ou na cozinha, e costurá-los na narrativa; e arrancar lágrimas de Ringo enquanto esse descreve seu último encontro com o guitarrista.

Apesar das inúmeras críticas em relação à falta de um narrador em off, que ajudaria a contextualizar muitos dos depoimentos (não há preocupação em saber se o espectador conhece de fato os entrevistados, e quem não tem familiaridade com a história da banda pode se perder bastante), Scorsese consegue com essa estratégia que todos tenham um peso equivalente, salvo os ex-integrantes da banda e as viúvas de Lennon e  Harrison. Um peso que parece ser o mesmo que o guitarrista deu a todas essas pessoas enquanto vivia, como descreveu Clapton.

Uma das falas mais poéticas é do ex-piloto de F1 Jack Stwart, que enxergava em George a mesma capacidade de sentidos aguçados que um piloto vivencia nos momentos extremos de velocidade. Talvez a vida do autor de “Something” tenha sido isso mesmo: uma viagem supersônica com os sentidos a mil, da qual nós, sentados à beira da estrada, só tenhamos direito mesmo a ver um borrão.

Will.I.Am, Fergie & Cia foram parar nas cátedras. Um estudo realizado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP analisou a incorporação do hip hop na indústria nacional e escolheu a trupe dos Black Eyed Peas para descobrir quais elementos do gênero, que defende seus guetos enfaticamente, ainda sobrevivem em uma banda que alcançou o estrelato pop.

Conforme contou ao site oficial da instituição, a pesquisadora Marcela Marques Fortini, autora do estudo, analisou uma coletânea de videoclipes que trazia canções dos três primeiros álbuns.  Apesar de fugirem do estereótipo dos grupos de hip hop, “todos vêm de grupos sociais que não se encaixam no padrão norte-americano, do branco protestante”, explica. A grande produção dos clipes, no entanto, não deixa a desejar aos colegas hollywoodianos da cidade de Los Angeles, onde o BEP se formou.

O que sobrou do hip hop, segundo a autora, foram a influência musical, a divisão dos papéis femininos e masculinos, e o poder da palavra. Os shows performáticos, que envolvem a participação da plateia, lembrariam rituais religiosos. Eminem, Snoop Dogg e outros artistas correlatos também estão presentes no trabalho como parâmetro de comparação.

Foto: Caroline Bittencourt - Divulgação

Na sexta, o prestigioso auditório recebe o show de lançamento de um dos álbuns de MPopB mais comentados em 2011. No domingo, o parque abre uma festa ao ar livre de um dos coletivos mais aclamados dessa mesma seara, em show grátis pelo TelefônicaSonidos. Por isso, caro leitor, minha dica da semana que antecede-a-que-atencede o Natal é: aproveite o Ibirapuera e, de quebra, ainda veja o espetáculo da árvore!

O gaúcho Filipe Catto apresenta seu trabalho de estreia, “Fôlego”, no Auditório Ibirapuera na sexta (16). Produzido por ninguém menos que Paul Ralphes (big boss artístico da Universal) e pelo gente boníssima Dadi (A Cor do Som), o álbum ganhou prestígio nacional com a faixa “Saga” na trilha sonora da novela “Cordel Encantado”. Agora, o single “Adoração” ganha as rádios brasileiras. Filipe promete no show ainda covers  como “To Bring You My Love” da PJ Harvey.

Já no domingo (18), o parque Ibirapuera te espera a partir do meio-dia na edição final de 2011 do TelefônicaSonidos. Dessa vez, a Orquestra Imperial, que não aparecia pelos lados paulistanos desde março, convida Criolo e Emanuelle Araújo (atriz e vocalista da Moinho) para fazer a festa.

Entre uma gafieira e outra, Moreno Veloso, Rodrigo Amarante, Talma de Freitas & Cia devem integrar, como de costume, os convidados à sua miscelânea, além de interpretar canções dos próprios.
SERVIÇOS
Filipe Catto – Auditório Ibirapuera

Sexta, dia 16 às 21h

Av. Pedro Alvares Cabral, s/n – Portão 2 do Parque do Ibirapuera
(Entrada para carros pelo Portão 3)
Tel: (11) 3629-1075

Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia entrada)

 TelefônicaSonidos – Misture-se no Ibirapuera
Orquestra Imperial convida Emanuelle Araújo e Criolo

Domingo, 18, ao meio-dia
Local:
Parque do Ibirapuera – no estacionamento ao lado do museu Afro Brasileiro
Endereço: Avenida Pedro Álvares Cabral, sem número – São Paulo – entrada pelo portão 10.
Data: dia 18 de dezembro – domingo
Horário: meio-dia
Preço: Gratuito

2011 pode ser considerado “The Year Grunge (Re)Broke”, com shows lendários de Pearl Jam e o suspiro final do Sonic Youth em solo brazuca; os belíssimos documentários “Pearl Jam 20” e “Foo Fighters Back and Forth” (que invariavelmente nos leva ao Nirvana e tudo que ele engloba); e a edição dupla “deluxe” em comemoração aos 20 anos de Nevermind. Para quem viveu a euforia adolescente de usar camisa xadrez de flanela em plenos 40 graus no interior de São Paulo (o meu caso), no entanto, o grunge nunca deixou de existir – as vestimentas, graças a Deus, se tornaram mais confortáveis. Se os anos 00 viram um verdadeiro boom de bandas derivadas do hardcore californiano, a previsão é de que os anos 10 sejam invariavelmente marcados pela maturidade dos filhos da geração de Seattle.  E a banda Sol de Papel traz esse registro com competência indelével em seu álbum de estreia, “O Quarto Estúdio”, que ganha lançamento hoje na Fnac de Ribeirão Preto (SP).

E aqui acaba a porção puramente jornalística desse texto, caro leitor. O motivo é simples. Pedro Rubiani (vocal/guitarra)e Bruno Pessotti (baixo) são amigos de colégio, de quem eu vi desde a apresentação número 1; Nandera Oliveira é um baterista que admiro desde essa mesma época; e para o Rodrigo Galvão (guitarra), bem, devo desculpas até hoje porque roubamos o baixo dele várias e várias vezes para que sua irmã tocasse na banda da qual eu fazia parte.

Dito isso, registro minha surpresa. Não em comparação ao que já ouvi deles, mas em relação ao que já ouvi. Há coesão com o que se propõe, e trabalho bem feito entregue, com letra e música compatíveis com o que se prega. Não há reinvenção em timbres, mas há o som certo para cada intenção (e isso incluiu background, pianos e outros requintes, como em “Dança das Marés” e “Digo que Venci”). E uma belíssima produção, diga-se de passagem. Não à toa, o álbum ganhou masterização na Masterdisk, em Nova York, por onde já estiveram trabalhos de Nirvana, Pearl Jam, Smashing Pumpkins etc.

Muitos dos elementos dos anos 90 estão mesmo ali: o contrate peso/melodia, os riffs explosivos em refrões potentes, a bateria quebrada que acompanha a perfumaria (OK, isso é a herança dos anos 70 que foi parar nos porões de Washington). Mas há o frescor do baixo bem construído, como na faixa “Talvez”; há pontes bem delineadas, como em “Noroeste 313”; há passeios pelo sincopado do funk como “Um Pouco de Alma”. Há possibilidades que transformam o álbum em uma carta de intenções de um grupo que entrega e tem muito a entregar.

Fosse um CD sem passado que chegasse às minhas mãos, talvez eu pudesse perfilar mais qualidades com um pouco menos de medo de soar olha-que-legal-a-banda-dos-meus-amigos. Mas acho que “O Quarto Estúdio” é prova viva de uma máxima que poucas bandas levam a sério: seja honesto consigo mesmo.  Não tente escrever o novo OK Computer. Faça o que você está a fim e assuma potencialidades. É dali que vai surgir algo verdadeiro.

Pocket Show de lançamento do CD “O Quarto Estúdio”

Local: FNAC Ribeirão Shopping

Quando: hoje, às 20h

Entrada Gratuita

Começa hoje em São Paulo e vai até o dia 30 de dezembro a Mostra “Clint Eastwood – Clássico e Implacável”, no CCBB.  Por módicos R$ 4 (com direito a meia entrada), é possível conferir petardos como “Bronco Billy”, “Sobre Meninos e Lobos”, “Meu nome é Coogan”, “Magnun 44”,“Cartas de Iwo Jima” e até mesmo o lacrimoso “As Pontes de Madison” (ok, eu chorei nesse filme, confesso).

Imortalizado como pistoleiro impiedoso desde sua estreia em “Por um punhado de dólares” (também presente na mostra), do gran chef do western à carbonara Sergio Leone, fora das telas Eastwood também protagoniza desde 71 uma carreira de diretor, que pode ser conferida recentemente com o longa um tanto espírita “Além da Vida”.

A mostra também passa por Brasília a partir do dia 13 e garante um Natal bem feliz aos amantes do cinema das duas cidades. Veja a programação completa aqui.

Clint Eastwood – Clássico e Implacável

De 6 a 30 dez 2011

CCBB São Paulo: R. Álvares Penteado 112,

róximo às estações Sé e São Bento do Metrô.

Inteira: R$ 4/ meia: R$ 2

Estacionamento conveniado:  R. da Consolação 228,com transporte gratuito até as proximidades do CCBB