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Foi com um certo desfalecimento que presenciei, há mais de uma semana, a apresentação apoteótica do Foo Fighters, que relembrei nesse último domingo, na reapresentação do Multishow. Não só pela emoção de ver uma banda megacompetente ao vivo, cuja carreira acompanho bem antes dela ter mesmo nascido; não só pela já esperada catarse provocada pelo carisma de Dave Grohl e do baterista Taylor Hawkins, que fizeram um show de arena digno de bandas clássicas, aterrissando com o jogo ganho e entregando à plateia o que ela quer; mas pelo desfalecimento físico mesmo, do qual prometo a mim mesma não mais ser vítima – a idade bateu forte aqui.

Shows grandes e festivais têm uma cartilha que deve ser seguida. Munir-se de água e mantimentos para os momentos críticos e ter a chance de decidir se encara ou não as grandes filas; achar um bom espaço; dar sorte de não ter um brutamontes por perto ou uma patricinha que não prende o cabelo e joga as madeixas tratadas em salão na sua cara e não quer borrar o rímel e, por isso, te empurra. Lollapalooza teve isso e muito mais e, portanto, não foi tão errada a decisão de procurar um spot o mais próximo do palco, permanecer ali feito abóbora, me alimentando dos meus víveres e aguardando a chegada do “messias”, que pode ser visto ao vivo e pelo telão (a julgar pelos comentários de quem ficou lá atrás, o telão não dava exatamente pra ser contemplado em todos os lugares, dado o seu tamanho em comparação ao espaço gigantesco do palco principal).

Ultrapassadas todas essas barreiras, é hora de curtir o show, que foi tranqüilo, com raríssimas rodas de pogo, mas muita gente pulando freneticamente a cada acorde. Não pra menos: cada riff saído da guitarra de Mr. Grohl correspondia a um hit e, salvo em casos específicos, toda e qualquer música foi entoada feito cântico pelos fãs. A voz fanha e muitas vezes falha do vocalista, que declarou em entrevista à Rolling Stone estar em tratamento para um cisto na garganta, não foi ignorada apenas por parte da mídia que cobriu o evento (raras matérias mencionaram o fato): os fãs faziam questão de preencher os versos com suas próprias vozes, a plenos pulmões.

Alguns momentos se mostraram mais silenciosos na ala à direita do palco, onde eu me encontrava. Canções mais antigas como “Big Me” e “This is a Call”, citações de Led Zeppelin no meio de “White Limo” (se não me engano) e de “Feel Good Hit of the Summer”, do Queens of the Stone Age em “Stacked Actors”, e a clássica faixa 1 do álbum “The Wall”, do Pink Floyd (“In the Flesh?”)  na voz do baterista causaram um certo ponto de interrogação na ala juvenil do público. Mas não serei eu, a ala geriátrica que a essa hora já sentia o ciático depois de horas em pé no mesmo lugar, quem irá julgar, não é mesmo?

O ex-baterista do Nirvana fez o impossível para dar ao público brasileiro do festival um show de duas horas e meia de duração, recheado com todas as faixas que ele imagina necessárias aos fãs, com todos os trejeitos de um rockstar que ele faz questão de pontuar em sua performance – e, de quebra,  com uma participação especialíssima de Joan Jett. Eu paguei com muitas gotas de sangue e suor, e me pareceu uma troca justa.

TV on the Radio

Até mesmo eu me decepcionei um pouco com um setlist um tanto bizzaro (mas previsível, dadas as últimas apresentações) da TV on the Radio. O show, no entanto, enche os ouvidos dos discípulos de um bom groove. Cada década tem o Living Colour que merece e, a meu ver, a dos anos 00 é essa, com uma pitada a mais de raízes bem fincadas no soul, um frontman (Tunde Adebimpe) carismático, com visíveis influências de Stevie Wonder e muita ginga.

E o Rappa? Foi o Rappa. Coisa para deslumbrar gringo, que aqui no Brasil eles já têm o jogo mais que ganho.  Fez bonito.

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Espécie de flor de lótus gerada no meio do esterco que foi o fim do Nirvana, o Foo Fighters esperou álbuns e álbuns por sua redenção perante a comunidade musical. E exatamente um ano antes de sua apresentação em solo brazuca no Lollapalooza,  a banda de Dave Grohl, – o até então considerado  “ cara mais legal do rock” –  disponibilizou nos cinemas o documentário que, a reboque do aclamado recém-lançado álbum “Wasting Light”, traria o resgate de sua nada calma história.

Vamos muito, muito por partes.  “Back and Forth” presta, a princípio, um serviço aos fãs mais recentes, que estão acostumados a ver as caras sorridentes do grupo e todo o sucesso atual que ele alcança, e nem imagina os sacos de sal que o povo já comeu, como as idas e vindas de Pat Smear na guitarra;  a overdose do batera Taylor Hawkins; e as demissões nada amigáveis do guitarrista Franz Stahl e do baterista Willian Goldsmith. Também narra uma trajetória incrível de uma banda que surgiu de uma demo tape que Grohl gravou sozinho, ainda em meio à letargia que se seguiu ao suicídio de Cobain, e que aqueles moleques do clipe de “Big Me”, uma paródia impagável dos comerciais de Menthos, jamais imaginariam onde fosse parar.

Por outro lado, é uma biografia mais que autorizada e, por isso mesmo, mantém os dentes do ex-baterista do Nirvana brilhantes na tela. Uma outra narrativa lançada também em 2011 em livro, “This is a Call – The Life and Times of Dave Grohl”, do jornalista Paul Branningan, esclarece alguns desses episódios que o filme abranda um certo tanto. Apesar de fã declarado de Grohl, o autor consegue esmiuçar um pouco mais, entre outras coisas, como o baterista Willian descobriu que a banda toda estava refazendo “The Colour and The Shape” sem ele. Como Franz Stahl sacou, em 1997, o que Dave Grohl decidiu deixar em panos limpos só lá na frente, em One by One (2002): que aquela era banda dele, e ele decidiria no fim das contas como ela seria, por mais que adorasse que todos dessem ideias. E, entre todos os contratempos do mundo, os muitos e muitos “brancos” de criatividade que aplacaram o grupo em toda sua história.

Com uma discografia considerada pela crítica como bastante irregular, o Foo Fighters tem, no entanto, um mérito gigante na história da música das últimas duas décadas que “Back and Forth” ressalta com maestria: eles são pura celebração da festa que é o rock and roll, com propriedade técnica. Um moleque que cresce ouvindo a banda precisa se esforçar em um nível bem maior para tirar as músicas se comparado a outros grupos contemporâneos e, dado o seu alcance pop mundial, os integrantes indicam bandas um tanto decentes que a molecada deveria ouvir, antigas e novas. Sem contar a facilidade com que Grohl trafega pelos mais diversos gêneros, seja em colaboração com o Queens of the Stone Age, com seu projeto de heavy metal Probot ou em parcerias pelo mundo afora – sem a Roberto-Carlização que acomete Andreas Kisser, por exemplo.

2011 pode ser considerado “The Year Grunge (Re)Broke”, com shows lendários de Pearl Jam e o suspiro final do Sonic Youth em solo brazuca; os belíssimos documentários “Pearl Jam 20” e “Foo Fighters Back and Forth” (que invariavelmente nos leva ao Nirvana e tudo que ele engloba); e a edição dupla “deluxe” em comemoração aos 20 anos de Nevermind. Para quem viveu a euforia adolescente de usar camisa xadrez de flanela em plenos 40 graus no interior de São Paulo (o meu caso), no entanto, o grunge nunca deixou de existir – as vestimentas, graças a Deus, se tornaram mais confortáveis. Se os anos 00 viram um verdadeiro boom de bandas derivadas do hardcore californiano, a previsão é de que os anos 10 sejam invariavelmente marcados pela maturidade dos filhos da geração de Seattle.  E a banda Sol de Papel traz esse registro com competência indelével em seu álbum de estreia, “O Quarto Estúdio”, que ganha lançamento hoje na Fnac de Ribeirão Preto (SP).

E aqui acaba a porção puramente jornalística desse texto, caro leitor. O motivo é simples. Pedro Rubiani (vocal/guitarra)e Bruno Pessotti (baixo) são amigos de colégio, de quem eu vi desde a apresentação número 1; Nandera Oliveira é um baterista que admiro desde essa mesma época; e para o Rodrigo Galvão (guitarra), bem, devo desculpas até hoje porque roubamos o baixo dele várias e várias vezes para que sua irmã tocasse na banda da qual eu fazia parte.

Dito isso, registro minha surpresa. Não em comparação ao que já ouvi deles, mas em relação ao que já ouvi. Há coesão com o que se propõe, e trabalho bem feito entregue, com letra e música compatíveis com o que se prega. Não há reinvenção em timbres, mas há o som certo para cada intenção (e isso incluiu background, pianos e outros requintes, como em “Dança das Marés” e “Digo que Venci”). E uma belíssima produção, diga-se de passagem. Não à toa, o álbum ganhou masterização na Masterdisk, em Nova York, por onde já estiveram trabalhos de Nirvana, Pearl Jam, Smashing Pumpkins etc.

Muitos dos elementos dos anos 90 estão mesmo ali: o contrate peso/melodia, os riffs explosivos em refrões potentes, a bateria quebrada que acompanha a perfumaria (OK, isso é a herança dos anos 70 que foi parar nos porões de Washington). Mas há o frescor do baixo bem construído, como na faixa “Talvez”; há pontes bem delineadas, como em “Noroeste 313”; há passeios pelo sincopado do funk como “Um Pouco de Alma”. Há possibilidades que transformam o álbum em uma carta de intenções de um grupo que entrega e tem muito a entregar.

Fosse um CD sem passado que chegasse às minhas mãos, talvez eu pudesse perfilar mais qualidades com um pouco menos de medo de soar olha-que-legal-a-banda-dos-meus-amigos. Mas acho que “O Quarto Estúdio” é prova viva de uma máxima que poucas bandas levam a sério: seja honesto consigo mesmo.  Não tente escrever o novo OK Computer. Faça o que você está a fim e assuma potencialidades. É dali que vai surgir algo verdadeiro.

Pocket Show de lançamento do CD “O Quarto Estúdio”

Local: FNAC Ribeirão Shopping

Quando: hoje, às 20h

Entrada Gratuita

As pessoas vêm me dizer que amam o Nirvana. Eu não era do Nirvana. Mas eu sou dona do Nirvana, eu e minha filha.

 

Coutney Love, que fez seu show do Hole no SWU repercutir mundialmente mais pela metralhadora de ofensas endereçadas a Dave Grohl e suas falas sobre Kurt Cobain (a propósito, caro leitor: a mãe do líder do Foo Fighters é professora e o pai abandonou a família, segundo a biografia “This is a Call”, de Paul Branningan).