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Message Stones

Você só queria ver o “Véi na Boa” do dia ou procurar o vídeo mais recente da Porta dos Fundos. Deu de cara com uns amigos (e no Facebook isso significa do seu irmão ao colega chato que você conheceu na festa da vizinha e achou que pegava mal não aceitar o pedido de amizade) falando do aumento das passagens de ônibus, de manifestação, baderna, polícia, passeata. Blá blá blá à parte, você pode ter passado reto dos comentários; pode ter curtido, compartilhado, discutido; ou pode simplesmente ter decidido ocultar os posts de todo mundo. Se teve algum nível de relação com o assunto, antes mesmo dele dominar sua timeline, experimentou um pouco do que as redes sociais podem trazer de experiência em educação para a cidadania.

O termo “educar para a cidadania” parece bocejante quando a imagem mental recai sobre um espaço educativo fechado e um expert à frente do tema transmitindo conceitos que fazem sua atenção viajar até onde Judas perdeu as meias (as botas foram embora muito antes). Mas toda educação que se pretende libertadora, que se pretende conscientização, como projetava Paulo Freire em “Extensão ou Comunicação”, passa, necessariamente, pela negociação do sentido que se dá ao saber.  E, nesse ponto, a estrutura de comunicação que nossos discursos ganham na internet permite que cada um de nós possa ir muito além do like de um conteúdo ou outro. Estamos aprendendo o que fazer com o que nos é dado na internet, em menor ou maior grau. E o mais importante: sim, estamos todos aprendendo.

Bate coração

147110Mas como é que se junta educação, cidadania e fotos de baladas/ cachorros fofos / piadas futebolísticas em um contexto de forma produtiva? Não se trata de uma ação, de uma imposição. A curadoria é individual, espontânea e puramente emocional. E pressupor uma educação emocional é, ao mesmo tempo, aterrorizante e fantástico. Nilson José Machado tem um conceito interessante que define educar para a cidadania como

prover os indivíduos de instrumentos para a plena realização desta participação motivada e competente, desta simbiose entre interesses pessoais e sociais, desta disposição para sentir em si as dores do mundo

De nada adianta passar por valores cidadãos tão importantes como os que propõe Adela Cortina, como a liberdade, a igualdade, a solidariedade, o respeito ativo e o diálogo, se não se puder discutir o que cada um deles realmente significa para quem os está saboreando pela primeira  (ou pela enésima) vez. Se não for possível suscitar uma motivação afetiva de participação. Se os vídeos capturados e compartilhados por milhares de celulares nos últimos dias não baterem, de alguma forma, num fio de alma que seja.

Pois bem. As experiências recentes em São Paulo tem mostrado que na timeline de cada um é possível, sim, caber as dores do mundo. O quanto você as sente com suas também?

Pra quem quer saber mais:

CORTINA, Adela. Cidadãos do Mundo: para uma teoria da cidadania. São Paulo: Edições Loyola, 2005.

FREIRE, Paulo. Extensão ou Comunicação? Rio de Janeiro: editora Paz e Terra, 1977

MACHADO, Nilson José. Cidadania e Educação. São Paulo: Escrituras Editora, 1997.